
Por Gladston Oliveira dos Passos
Cotidianamente nos deparamos com uma onda de violência extrema contra as mulheres, essa é uma realidade que atinge todo território nacional. É difícil de esquecer o caso de Tainara, que faleceu após ter sido atropelada e arrastada por cerca de 1 km pelo seu antigo namorado na zona norte de São Paulo. Em Sergipe, tivemos a vida ceifada de Deise, que viveu durante dez anos num ciclo de agressões físicas e psicológicas sendo assassinada pelo ex-companheiro na frente de seus filhos. Além desses, no mês de maio, acompanhamos a tentativa brutal de feminicídio contra Ana Claúdia, jogada de um penhasco de aproximadamente 50 metros na região metropolitana de Belo Horizonte. Todas essas violências revelam o sofrimento que as mulheres passam por viverem e sobreviverem numa sociedade machista, patriarcal e misógina. A todo o momento somos bombardeados por uma enxurrada de notícias que nos causa revolta, ojeriza e principalmente impotência.
Tendo em vista que não bastam somente termos Leis, medidas protetivas ou instrumentos jurídicos que coíbam essas violências. É necessário também educar as gerações futuras, principalmente os homens, não nos moldes de um curso para macho como vimos circulando nos últimos meses. A conscientização desses novos homens perpassa o enfrentamento de um modelo hegemônico de masculinidade que estruturalmente convive conosco por séculos e que estimula a subordinação das mulheres e de outras masculinidades lidas como inferiores. É uma tarefa fácil? Com certeza não! Porém, seria o primeiro passo na reestruturação desse processo, longo, mas possível.
Em meio a tantas dificuldades no enfrentamento da violência contra as mulheres, nos cabe a seguinte reflexão: Como eu posso contribuir para a redução dos números? Fazendo um paralelo com o período pandêmico da Covid-19, o isolamento foi primordial para o vírus não se proliferar, e essa medida teve a colaboração de cada um de nós, mesmo sob um governo genocida que dizia o contrário. No que tange ao papel da academia, de nós, pesquisadoras/es, qual nossa contribuição? É importante salientar que vivemos na era da pós-verdade, e constantemente precisamos provar a importância da ciência em nossas vidas. Há pouco tempo estávamos travando uma disputa sobre a necessidade ou não de tomar vacina, um debate que questionava a credibilidade de quem produzia conhecimento e valorizava a opinião pública. A consequência disso foram centenas de mortes que poderiam ser evitadas, e mesmo assim ainda nos deparamos com pessoas adeptas a esse movimento anticientífico. Contudo, naquele cenário tão estarrecedor uma pesquisadora negra e brasileira foi peça-chave na luta contra essa pandemia, seu nome é Jaqueline Goes de Jesus, doutora em Patologia Humana e Experimental responsável pela pesquisa do sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no País, seu trabalho possibilitou a compreensão de como o vírus se disseminava, auxiliando o desenvolvimento de testes e imunizantes.
A luta travada por essa pesquisadora é a mesma que tantas outras passam diariamente, independente de quais temáticas estejam trabalhando, fazer pesquisa no Brasil não é uma tarefa simples, requer muita dedicação, amor e força de vontade, características que não faltam a uma pesquisadora que merece não só a minha admiração, mas de toda sociedade, ela se chama Patrícia Rosalba Salvador Moura Costa, Doutora em Ciências Humanas e desenvolve pesquisas na área interdisciplinar em Humanidades, atuando nos seguintes temas: Gênero, Violências, Sexualidades e Relações de Poder e coordenadora do Xique-Xique: grupo de pesquisa em gênero e sexualidades/UFS/CNPq.
Quando afirmo que produzir ciência no nosso País é algo extremamente difícil não é por acaso, durante anos acompanho o trabalho executado pelo grupo, e não é pouco! Entre tantas conversas informais que não são publicadas nos artigos que escrevemos, lembro-me de várias situações problemáticas que passamos, como casos de violências, ameaças, assédio moral, falta de apoio institucional e de recursos para desenvolver atividades. O Xique-Xique é um grupo extremamente potente com diversas pesquisas e projetos aprovados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, um dos mais recentes é sobre a Gestão Estatal do Feminicídio e Tansfeminicídio no Brasil, Espanha, Equador, Peru e México.
Além de todos os trabalhos acadêmicos que as integrantes do Xique-Xique construíram durante esses anos e que são de tamanha relevância para a sociedade, instituímos o Laboratório de Violências Domésticas, Feminicídio e Transfeminicídio, vinculado a Universidade Federal de Sergipe, um espaço reservado para a produção de conhecimento e a parceria com instituições públicas para a reflexão das políticas. A luta incessante do grupo, através da coordenação, em prol de uma sociedade mais justa, igualitária e sem preconceitos me lembrou do período que trabalhei como advogado na ASTRA – Direitos Humanos e Cidadania LGBTI+, uma ONG localizada na capital de Sergipe e que há mais de vinte anos realiza um trabalho de assessoria jurídica e psicossocial para a comunidade LGBTI+.
Ao participar de alguns projetos executados pela instituição presenciei a dedicação que a presidenta e fundadora da ONG, Tathiane Araújo tinha e ainda tem para a permanência daquele espaço, um local que busca combater as discriminações e violências vividas pelo público que o frequenta e que o compõe. Reconheço a pesquisadora que vive nela, até porque compartilho do entendimento da pedagoga afrotransfeminista e autora do livro pedagogias das travestilidades, de que “existência e conhecimento, para os movimentos sociais latino-americanos caminham conjuntamente”. Nesse sentido, o conhecimento produzido em sua militância pode e deve qualificá-la também como uma pesquisadora. Independentemente da área na qual essas mulheres estejam lutando, elas são uma fonte de inspiração para nós. E como afirma a cientista política, historiadora e ativista Françoise Vergés “Toda forma de luta, por “menor” que seja, é o motor de um feminismo decolonial”.
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