Fé, mel e propósito movem o Meliponário Santa Terezinha, reflexo do avanço da meliponicultura em Sergipe e da união entre empreendedorismo, preservação ambiental e produção de mel

 Assim como as abelhas retiram o néctar para produzir o mel, desde 2011, Adolpho Lima aprendeu a extrair das situações mais difíceis a matéria-prima para o seu sustento financeiro. Por consequência, o jovem poliniza Aracaju com empreendimentos que levam doçura e sabor aos mais diferentes tipos de consumidores. Do Aloha Drinks à comercialização de enxames e mel, Adolpho encontrou na meliponicultura uma forma de superar a depressão após fechar o seu primeiro empreendimento com ponto fixo devido à pandemia da Covid-19. Buscando apoio na fé, o empreendedor nato iniciou um novo negócio, dando origem ao Meliponário Santa Terezinha, projeto dedicado a homenagear a avó paterna de 90 anos, considerada por Adolpho como a abelha-rainha da sua vida.

Segundo informações do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Sergipe (Senar Sergipe), o interesse pela criação de abelhas vem ganhando espaço no estado. Com uma estimativa de crescimento superior a 50% nos últimos anos, o Governo de Sergipe considera que o estado vive atualmente a ascensão da meliponicultura e da apicultura. Ainda de acordo com o Senar, Sergipe conta com cerca de 100 meliponicultores, número que tende a aumentar, já que a atividade envolve espécies de abelhas sem ferrão, mais mansas e fáceis de criar. Além disso, a prática é vista como um hobby, ao mesmo tempo em que se configura como uma alternativa de renda, devido ao alto valor comercial do mel produzido por essas espécies.

Na percepção de Rogério Alves, engenheiro agrônomo, pesquisador, professor do Instituto Federal da Bahia (IFBA), e orientador de Adolfo na meliponicultura, o interesse pela criação de abelhas nativas vem crescendo desde a pandemia, período em que algumas pessoas encontraram na atividade uma forma de gerar renda e passaram a desenvolver uma cultura de preservação e valorização das espécies brasileiras. Foi no pós-pandemia que Adolpho ressignificou as incertezas sobre o futuro, buscando informações e iniciando uma trajetória de estudos sobre as abelhas sem ferrão depois de pedir a ajuda de Deus. O atual meliponicultor pontua que o novo projeto vai além de uma atividade financeira, sendo também uma resposta às suas orações e um chamado para colaborar com a conservação da biodiversidade de Sergipe.

“Honestamente, eu não sabia mais o que fazer. Enfrentando a depressão, em um dos meus vários momentos com Deus, pedi direção para entender qual caminho seguir, porque já não tinha forças para continuar. Dias depois, comecei a ver conteúdos sobre abelhas e descobri que um amigo próximo criava algumas espécies. Bastou uma visita à criação dele para entender que aquilo não era coincidência, mas sim a misericórdia de Deus estendendo a mão e dizendo: Vamos, Adolfo. Siga em frente. Daí, comecei a estudar incansavelmente sobre elas. Quanto mais eu entendia sobre as abelhas, mais apaixonado eu ficava pelo assunto”, destaca Adolpho.

Formado em engenharia de pesca, o meliponicultor afirma ainda que sempre teve amor  pela natureza e que um dos seus objetivos com a formação acadêmica era seguir nessa área, plano que acabou sendo interrompido por alguns contratempos ao longo da vida. “Trabalhar com as abelhas é voltar às minhas raízes e também uma forma de preservar um polinizador extremamente importante para a produção de alimentos e para a qualidade de diversos frutos. Se as pessoas entendessem a importância das abelhas na cadeia alimentar e os benefícios do mel das espécies sem ferrão, que também possui uso medicinal, talvez existisse uma valorização maior das espécies nativas. Fora isso, estar junto delas é algo que me traz força física e emocional”, compartilha Adolpho.

De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), existem mais de 250 espécies conhecidas de abelhas sem ferrão no Brasil, com estimativas que podem chegar a 300. Cada colmeia do grupo das meliponas produz de 1 a 3 litros de mel por ano. Entre as espécies desse gênero criadas por Adolpho estão a uruçu nordestina e a mandaçaia.

Muitas aventuras e uma Abelha- rainha

Hoje, o Meliponário Santa Terezinha, com sede às margens do Rio São Francisco, na Fazenda Juranda, oferece consultoria para a criação de abelhas, caixas com enxames e produtos personalizados. Yuri Porto, estudante de Medicina, e Marcelo Fonseca, piloto de drone, uniram-se a Adolpho, formando o grupo dos três mosqueteiros do mel, que trabalham como as próprias abelhas. Cada um tem uma função para a continuidade do negócio: Yuri aplica seus conhecimentos para entender as propriedades medicinais das diferentes floradas, Marcelo ajuda no marketing do meliponário, e Adolpho é a mente por trás das colmeias.

Quem tem a oportunidade de conhecer o local se encanta com a beleza, a paz e a doçura presentes no meliponário. Entretanto, quem pensa que o resgate das abelhas e o trabalho realizado por Adolpho é um mar de mel se engana. Adentrando uma mata densa, uma das histórias de aventura do rapaz inclui um tronco de árvore, duas motosserras e quatro homens tentando atravessar o Rio São Francisco em uma canoa no meio da madrugada.

Adolpho relembra um dos episódios mais inusitados vividos durante o resgate de um enxame próximo à fazenda da mãe. Durante uma conversa com um pescador da região, o meliponicultor comentou que criava abelhas e ouviu que, em uma propriedade nas redondezas, um grupo de pessoas pretendia derrubar uma árvore oca para matar um enxame e retirar o mel. O convite veio logo em seguida: “Quer ir pegar elas para criar antes que as matem?”. A resposta foi imediata: “Quero sim, na hora. Vamos lá!”.

A primeira coisa que chamou a atenção do aventureiro das abelhas ao chegar na mata foi uma pele de cobra quase do tamanho dele. “Quando vi aquilo, pensei: vixi Maria, mas continuei. O tronco era extremamente rígido, não conseguíamos serrá-lo, sem falar das muriçocas, que não paravam de atacar a gente. Nessa hora, pensei: meu Deus do céu, que aventura doida é essa? Mas foi extremamente  gratificante fazer esse resgate. Depois de muito sacrifício para levar a parte do tronco que tinha o enxame até a canoa, veio um desafio ainda maior: voltar para a fazenda da minha mãe atravessando o Rio São Francisco, no completo breu, com um tronco maior que eu, três homens e duas serras elétricas dentro de uma canoa”, conta Adolpho, rindo.

Com a alegria de quem sabe viver e ama o que faz, o meliponicultor conta que a canoa não virou, apesar do risco de qualquer mínimo movimento dos corajosos da mata dentro da estrutura ser suficiente para ocasionar isso, acrescido da angústia momentânea  de não enxergar a entrada da fazenda da mãe devido à escuridão da travessia. Além de ser apaixonado pelas abelhas, Adolpho deu um outro sentido às suas novas aventuras no empreendedorismo: dedicar cada vitória conquistada à sua avó Terezinha, a matriarca que sempre esteve com ele.

“Quando me deparei com a missão de escolher um nome para o meliponário, me perguntei quem era a abelha-rainha da minha vida, e a resposta que encontrei, olhando para toda a minha trajetória, foi Terezinha. Amo muito meus pais, mas dedicar esse projeto à minha avó foi consequência da ligação forte que sempre tivemos. Desde pequeno, compartilho minha vida, meus sonhos e minhas conquistas com ela. Me envolver na meliponicultura me ajudou a sentir novamente o sabor da vida e entender que, às vezes, esse gosto também tem um lado amargo. Mas o segredo é desfrutar da parte doce e trazer esse sabor para o centro da vida. Minha avó representa essa doçura para mim, porque sempre levou leveza aos meus momentos mais difíceis”, ressalta o neto.

Adolpho ainda compartilhou que decidiu pesquisar se a santa que tem o mesmo nome da avó possuía alguma ligação com o mel. Foi então que descobriu a relação de Santa Teresinha com as flores e a semelhança entre a doutrina da “Pequena Via” e o trabalho realizado pelas abelhas, marcado pelo cuidado, esforço e simplicidade na produção do mel, que silenciosamente leva doçura às pessoas. Ao encontrar a referência na internet, o meliponicultor sentiu Deus ainda mais próximo e afirmou, emocionado, que a cada dia tem mais certeza de que está no caminho certo, vivendo o extraordinário de Deus.

Vai encarar?

 Quem pretende empreender com a criação de abelhas sem ferrão tem a oportunidade de ir além da teoria e vivenciar uma imersão cercada pela Mata Atlântica e pela restinga brasileira, a apenas 3 km do Centro do Conde (BA), com o curso do professor Dr. Rogério Alves.

Instrutor de Adolfo na formação em meliponicultura, Rogério também ministra aulas práticas em Sergipe com a caravana Kuapab e oferece mentoria aos meliponicultores por meio de um grupo no WhatsApp, onde constantemente transmite um vasto conhecimento, resultado de mais de 50 anos dedicados ao estudo dessas espécies.

“As abelhas nativas passaram muito tempo sendo estudadas pelas universidades e ficaram restritas ao meio acadêmico. Por isso, muita gente conhece sua biologia, mas ainda existe carência em manejo e produção. Meu trabalho é ajudar a transformar esse conhecimento na prática da criação. Mesmo sendo um animal silvestre, a espécie pode ser manejada de forma produtiva, desde que isso aconteça com respeito à natureza. Diferente de outras criações, a abelha  precisa permanecer integrada ao ambiente natural para sobreviver. Por isso, a meliponicultura precisa ser boa para as abelhas, o meio ambiente, o produtor e o consumidor. Esse é o objetivo do meu curso, mostrar como as pessoas podem ter sucesso nesse ramo”, destaca Rogério.

Para o professor, a condução das abelhas só é bem-sucedida quando o meliponicultor compreende aspectos como alimentação, manejo, genética e clima, destacando que as abelhas são extremamente sensíveis às variações de temperatura e que mudanças de apenas 1 grau podem gerar impactos significativos nas colônias. Rogério também chama atenção para o valor  nutricional dos produtos dessas abelhas, como o samburá, que explica ser um pólen fermentado. Segundo ele, esse alimento é rico em nutrientes, sendo uma alternativa natural aos suplementos alimentares.

Ainda de acordo com o professor, o mel dessas espécies passa por um processo natural de fermentação e maturação que contribui para a presença de compostos bioativos. Por isso, o pesquisador destaca que o produto é frequentemente associado ao conceito de alimento nutracêutico. E como saber se o mel é verdadeiro ou falso? Rogério faz questão de salientar que não é possível identificar a autenticidade do mel dessas  abelhas apenas pela aparência ou degustação. Segundo ele, a confirmação da veracidade do produto depende exclusivamente de análises laboratoriais.

Atualmente, o presidente da Associação de Meliponicultores e Apicultores de Sergipe (Asmase), Ricardo Thairon, está junto com o professor Rogério, realizando um trabalho de mapeamento das espécies de abelhas sem ferrão em Sergipe, com o objetivo de criar um guia para fomentar o turismo ambiental no estado e informar em quais municípios estão localizadas as diferentes espécies, além de orientar como criá-las. O projeto será apresentado no 3º Encontro Sergipano de Apicultores e Meliponicultores, que acontece de 3 a 4 de julho, no SergipeTec, em Aracaju.

Entendendo os diferentes mecanismos de defesa utilizados pelas abelhas conhecidas como sem ferrão, que na verdade possuem um ferrão atrofiado, e sabendo identificar desde as mais mansas até as mais defensivas, Adolpho, que também presta serviço de mentoria, afirma que as abelhas possuem um valor simbólico por ensinarem lições de comportamento aos que iniciam na meliponicultura. Ele explica que esses animais não gostam de muita interferência humana na produção do mel e que esse comportamento já traz um importante aprendizado.

“Ficar abrindo a caixa da criação é algo ruim, elas precisam do espaço delas. Quando interferimos de forma mais persistente, podemos alterar a temperatura daquele ambiente  ou ainda deixar que algum pequeno predador tenha acesso a elas. As abelhas trabalham com excelência sozinhas, mas também precisam do apoio e da ajuda dos seres humanos, temos que entender o que elas estão precisando para prestar ajuda. Os seres humanos são iguais nisso, precisamos do nosso espaço, mas também precisamos do apoio e da cooperação uns dos outros. Temos a necessidade de alguém que esteja do nosso lado nos dando apoio”, explica o meliponicultor.

 O sabor do futuro

Para quem se envolve com a criação de abelhas, um dos assuntos que logo se tornam uma preocupação é a conservação das espécies. Edilson Divino foi o fundador do Conselho Estadual de Apicultura e Meliponicultura de Sergipe, onde atualmente é membro titular, representando a Universidade Federal de Sergipe (UFS). Edilson, que também pesquisa abelhas há mais de 30 anos, é professor de Genética e Evolução da UFS e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da universidade.

Divino avalia algumas ameaças enfrentadas atualmente pelas abelhas nativas. “Um dos grandes problemas é o fato delas ainda serem pouco conhecidas pela população em geral. Em função disso, há uma desvalorização dessas espécies. Outro ponto que merece atenção é a perda de habitats. Regiões que antes eram ocupadas pela Caatinga, por exemplo, estão sendo transformadas em lavouras de milho. O mesmo ocorre em áreas de Mata Atlântica. Dessa forma, as abelhas passam a viver em ambientes cada vez mais fragmentados. Como são muito sensíveis à fragmentação dos habitats, elas podem entrar rapidamente em endogamia, tornando-se mais vulneráveis e podendo até desaparecer desses ambientes.”

O coordenador em Ecologia e Conservação também aborda a importância da meliponicultura para a conservação das espécies, chamando a atenção para uma atitude inadequada de alguns profissionais da área.

“A meliponicultura é boa no sentido da conservação ex situ das espécies. O meliponicultor pode ser a pessoa que multiplica, e essa multiplicação faz com que novas colônias surjam ao redor daquela região. Desse ponto de vista, é excelente, além de ser um meio de vida. Sem falar que, quando alguém cria abelhas, acaba adotando o meio ambiente também, porque é disso que elas precisam, e você passa a entender essa importância. O lado ruim são alguns meliponicultores que acham que sabem de tudo e querem fazer uma coleção de abelhas, trazendo abelhas de outros biomas para a região onde estão. É imprevisível o que pode acontecer em termos de doenças e de concorrência dessas espécies com outras que sejam nativas”, alerta.

Adolpho afirma que atualmente seu principal objetivo é preservar a espécie e ampliar sua reprodução  para levar o consumo do mel dessas abelhas a um número cada vez maior de pessoas. Considerado uma iguaria por muitos apreciadores, o produto ganha cada vez mais espaço na gastronomia e também pode ser apreciado no preparo das bebidas do Aloha Drinks, empresa do meliponicultor que atualmente atua em eventos particulares.

“Eu sempre quis levar um produto de qualidade para as pessoas. Nos drinks que faço, algo que também estudei muito ao longo dos anos, trabalho com diversos sabores e sempre utilizo frutas selecionadas. Para os clientes que já conhecem os méis que produzo e desejam aplicá-los nas bebidas, nós fazemos essa combinação. O sabor fica incrível, porque, dependendo da florada, é surpreendente a diversidade de toques cítricos ou doces que podem ser encontrados”, explica o meliponicultor, que também é mixologista.

Além da venda de produtos naturais, o propósito do meliponário também é valorizar as abelhas nativas, que ensinam até hoje Adolpho a viver. Além disso, o empresário finaliza salientando que, há mais de um ano, o Santa Terezinha leva mais que sabor, sendo um empreendimento que busca fortalecer a fé e mostrar que a amizade com Deus é a doçura mais verdadeira da vida.

“Eu acredito que as abelhas me ajudaram a vencer a depressão, mas, se não fosse Deus, eu nunca chegaria até elas. Eu não tenho dúvidas de que esse projeto foi algo que Deus me confiou e sou extremamente grato por isso, assim como sou grato ao Yuri e ao Marcelo, que estão juntos comigo nessa caminhada. Antes de ser nosso, esse meliponário é Dele”, disse, referindo-se a Deus.

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