A eleição sergipana entrou naquela etapa em que cada gesto pesa mais, cada frase circula mais rápido e cada erro deixa marcas. A pouco menos de três semanas do primeiro turno, a disputa já não comporta ensaio. É hora de mostrar consistência, apresentar propostas e provar capacidade para governar. Quem tem obra, resultado e alianças consolidadas tenta transformar entrega em voto. Quem ainda não encontrou um caminho competitivo corre o risco de substituir projeto por ruído.

Fábio Mitidieri chega à reta decisiva liderando levantamentos recentes, apoiado por uma ampla rede de prefeitos e por uma campanha que busca associar continuidade a realizações. Valmir de Francisquinho tenta manter viva a imagem de principal adversário, mas parece cada vez mais tentado pelo atalho das insinuações. Ricardo Marques, por sua vez, luta para romper a polarização e convencer o eleitor de que sua candidatura não será comprimida pelo voto útil.

No Senado, a eleição continua fragmentada e imprevisível. Como o eleitor pode escolher dois nomes, alianças no palanque não garantem transferência automática. Já nas disputas proporcionais, começa a aparecer a diferença entre presença digital e estrutura real. A campanha entra, enfim, no momento da verdade.

Ilação I

A fala de Valmir de Francisquinho sobre uma suposta “surpresa” envolvendo Sergipe no caso Banco Master, elevou a temperatura, mas também elevou a cobrança: agora, o candidato terá de provar o que insinuou.bAté aqui, não apareceu publicamente lista, contrato, depoimento ou investigação que comprove a associação sugerida por Valmir entre Fábio Mitidieri e o caso Banco Master.

Ilação II

Se a “surpresa muito grande” existe, por que não apresentá-la? O eleitor não precisa de suspense; precisa de informação. Política não é série de televisão em que o candidato encerra o episódio prometendo cenas do próximo capítulo. Quem lança uma suspeita grave assume o dever de sustentá-la. Este episódio deixa Valmir diante de uma fragilidade: qual é, afinal, o conjunto de propostas novas que sua campanha oferece a Sergipe?

Cobrança

O candidato a governador, Ricardo Marques, tem buscado explorar problemas do abastecimento de água e informou ter cobrado providências após sucessivos comunicados e interrupções. É um tema que toca diretamente a população. Ricardo bate nessa tecla quase que monotemático. Já viu que o tema pode render dividendos políticos. Mas Ricardo precisa avançar, falar de outros temas e se posicionar entre Fábio e Valmir.

Posicionamento

E nesta onda de posicionamento, as três principais campanhas de governador buscam seus públicos de forma distinta. Fábio vende continuidade com entrega. Valmir vende mudança com apelo popular. Ricardo tenta oferecer uma ruptura mais ideológica. A reta final dirá qual narrativa conversa melhor com as urgências do eleitor — e qual ficou presa à própria bolha. É preciso que cada equipe analise bem os cenários e pesque eleitores no aquário do adversário.

Campanha

A disputa pelo Senado é mais difícil de ler porque cada eleitor pode votar em dois candidatos. Isso permite combinações improváveis: um nome da chapa pode receber o primeiro voto, enquanto o segundo atravessa fronteiras partidárias. A fidelidade ao palanque tem limite. Com duas cadeiras em disputa e muitos candidatos competitivos, ninguém pode agir como eleito. A eleição para o Senado em Sergipe continua aberta a movimentos de última hora.

Rogério

Rogério Carvalho tem partido, mandato, identidade política conhecida e uma forte militância. Seu desafio não é ser apresentado ao eleitor, mas ampliar a candidatura além do eleitorado petista e transformar a aliança com Fábio em capilaridade estadual. Colado umbilicalmente a Lula, Rogério se apresenta como senador do atual presidente e aposta totalmente em ser sombra de Lula para garantir o voto fiel do PT.

André Moura

André Moura aposta em articulação, experiência e presença junto a prefeitos. Numa eleição de duas vagas, sua força está na rede municipal. O risco é depender excessivamente da política de lideranças e não produzir conexão direta suficiente com o eleitor comum. Além disso, André se apresenta como o senador Fábio e cola sua imagem na do governador – até mais do que Rogério, o outro candidato de Fábio. André tem o desafio de melhorar sua imagem junto aos aracajuanos.

André David

O delegado André David tenta ocupar o espaço da segurança pública e do eleitor conservador. O bom desempenho inicial aumenta sua exposição, mas também muda o tratamento dos adversários: quem aparece no topo deixa de ser novidade e vira alvo. André pouco fala de Bolsonaro e parece não querer colar sua imagem a do ex-presidente. André aposta mais na imagem de Emília e nos feitos de quando atuava como delegado.

Eduardo Amorim

Eduardo Amorim carrega memória eleitoral e reconhecimento de nome, ativos importantes numa disputa congestionada. Precisa, porém, convencer que sua candidatura representa futuro, e não apenas lembrança de campanhas anteriores. Eduardo também tem colado sua imagem a da prefeita Emília Correa e aparecido constantemente usando jaleco de médico para mostrar que quer “cuidar” dos sergipanos.

Alessandro Vieira

Já Alessandro Vieira busca a reeleição com discurso de independência e atuação nacional. O desafio é traduzir temas de Brasília para a vida prática do eleitor sergipano. Mandato conhecido fora do estado precisa ser sentido dentro dele. Alessandro tentou surfar na onda da crise do Supremo Tribunal Federal (STF) para dizer que ele vem combatendo os desmandos de ministros desde o início do seu mandato. Parece que não colou.

Edvaldo Nogueira

Edvaldo tem como principal patrimônio político a experiência acumulada durante sua longa passagem pela Prefeitura de Aracaju. Foram vários mandatos à frente da capital, período em que construiu uma imagem de gestor experiente, conhecedor da administração pública e capaz de conduzir grandes projetos. Agora, a eleição para o Senado testará se essa marca consolidada em Aracaju consegue atravessar com força as fronteiras da capital e alcançar o eleitorado do interior.

Rodrigo Valadares

Rodrigo Valadares possui eleitorado ideologicamente identificado, mandato federal e forte presença nas redes sociais. São ativos importantes numa disputa fragmentada pelo Senado. Seu maior problema está dentro do próprio campo: as divergências públicas com Ricardo Marques e Coronel Rocha passam a imagem de um grupo que pede confiança ao eleitor sem conseguir organizar a própria casa. Se não reconstruir pontes, pode desperdiçar energia disputando espaço com aliados enquanto os adversários avançam.

Coronel Rocha

Bolsonarista de primeira ordem, o coronel Rocha vem enfrentando certas dificuldades na campanha dentro do próprio partido. O episódio público em que Coronel Rocha endureceu o tom contra Rodrigo Valadares expôs fissuras no campo do PL. Campanha para o Senado exige unidade mínima. Quando aliados discutem em público, os adversários economizam munição. Rocha questionou o não recebimento de recursos para a campanha.

Iran Barbosa

Iran Barbosa representa uma candidatura de esquerda com trajetória, coerência ideológica e ligação histórica com a educação e o serviço público. Num cenário congestionado, sua dificuldade será romper a faixa mais fiel do eleitorado progressista e ganhar escala estadual. Ao mesmo tempo, pode se beneficiar de eleitores que desejam um nome de esquerda fora das estruturas mais tradicionais. Tem discurso reconhecível; precisa transformá-lo em competitividade eleitoral.

Campanha fria

Agora, uma coisa tem chamado a atenção na campanha do Senado: os poucos ataques entre eles. Em 2018 e 2022, tínhamos muitas críticas e embates entre os candidatos. Mais fortemente em 18, quando as chapas tinham dois candidatos, vimos fortes embates entre Rogério Carvalho e Jackson, André Moura e Heleno Silva. Naquele ano, Alessandro surfou tranquilo na onda do bolsonarismo e fortalecimento direita. Será que teremos embates neste ano?

Além da tropa I

O coronel Ribeiro tem feito uma campanha diferente de todos os militares que se apresentaram e se apresentam para o eleitorado nos últimos anos. Tudo bem que Ribeiro passou pelo Comando Geral da PM e foi um dos melhores, mas Ribeiro não fala somente com sua tropa. Ribeiro comandou a Polícia Militar com firmeza, equilíbrio e responsabilidade, sem transformar a segurança pública em palco para bravatas. Foi uma atuação técnica, segura e distante do populismo. Num ambiente político dominado por frases de efeito, apresentar resultados concretos pode ser o seu maior diferencial.

Além da tropa II

A candidatura de Coronel Ribeiro demonstra capacidade para ultrapassar os limites do eleitorado ligado às forças de segurança. Sua trajetória interessa também a comerciantes, trabalhadores, famílias e comunidades que experimentaram os efeitos da redução da violência no período em que ele foi comandante geral da PM. Ribeiro conseguiu transformar a Segurança Pública em uma pauta não simplesmente corporativa; mas numa necessidade de toda a sociedade. Ponto pra ele.

Propriá

Luciano de Menininha chega a esta eleição com uma vantagem política: pode apresentar organização administrativa e resultados na educação como credenciais para pedir votos. Prefeito que arruma a casa ganha autoridade para participar da disputa estadual. O avanço do IDEB de Propriá oferece a Luciano um argumento mais forte que qualquer fotografia de palanque. Resultado mensurável dá peso ao apoio. O eleitor pode até não decorar índices, mas reconhece quando a escola pública melhora.

Pardal atento

O Tribunal Regional Eleitoral está de olho! Em menos de 30 dias, o aplicativo Pardal recebeu mais de 140 denúncias em Sergipe, resultando na abertura de 76 processos relacionados a possíveis irregularidades na propaganda eleitoral. Os números mostram que o cidadão está mais atento e disposto a fiscalizar o comportamento de candidatos, partidos e coligações durante a campanha.

CRÍTICAS E SUGESTÕES

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