“Canta…canta até que tua boca saibra a sangue”.

A Rainha Descalça

O achado de flautas de ossos datadas de 53.000 anos feitas pelos neandertais, estima que a atividade musical deve ter pelo menos duzentos mil anos, contra os cem mil anos de vida do homo sapiens. De acordo com pesquisas feitas pela Universidade de Harvard, as primeiras canções surgiram na pré-história como uma estratégia das mães que se mantinham isoladas pelas distâncias para manter os filhos quietos, sem que fosse necessário pegá-los no colo o tempo todo e assim ficarem livres para o trabalho. Cantar é simples o suficiente para permitir que algumas atividades sejam feitas de forma simultânea.

Pitágoras de Samos, filósofo, matemático, astrônomo e músico grego, que viveu no século V a.C. imaginava que a música é responsável por reger a harmonia entre os homens e os astros e assim manter a Ordem do Universo. A música seria o equilíbrio. Os povos, em diferentes partes do mundo e em estágios diferentes de civilização, desenvolveram suas próprias canções, cantadas em cerimônias religiosas, em rituais festivos e mesmo cantos solitários em momentos de profunda dor. A hipótese mais aceita hoje é a de que a música teve função primordial na formação e sobrevivência dos grupos e na amenização dos conflitos.

Como forte manifestação das emoções humanas, além do choro e da risada, a música exerce o papel que a fala sozinha não dá conta. O canto é uma forma de fala sustentada e pode influenciar positivamente o sistema imunológico por meio da redução do estresse. Ele comunica sentimentos e aplaca emoções.

O hebreu Daví com o som da sua harpa acalmou os ânimos do rei Saul, quando este se achava perseguido pelos espíritos da desesperança e do medo, e compôs grande parte do Livro dos Salmos para serem cantados pelo seu povo, nos momentos de grandes emoções sejam elas derivadas da alegria, da tristeza ou de profunda comunhão com o seu Deus.

Como as mães neandertais, encontramo-nos isolados não pelas grandes distâncias que separavam os povos que sequer sabiam da existência de outros semelhantes, mas por causa da superpopulação de seres humanos aglomerados em espaços que já foram vazios. O isolamento que era determinado pela vastidão da natureza quase intocada, hoje nos é imposto pela implosão dessa mesma natureza, mãe que não consegue simultaneamente acalantar os seus filhos rebeldes e ainda manter os seus braços e pernas livres para assegurar o curso harmonioso do Universo de Pitágoras.

Como as mães neandertais, todas as mães desse mundo contaminado, estamos entoando uma canção, até que a boca saibra a sangue, suplicando ao universo que afaste de nós esse cálice amargo de desesperança e de medo. E que consigamos todos juntos, mães e filhos, natureza e ciência, lutar pela sobrevivência de cada um e pela amenização dos conflitos que teimam em se aprofundar, num momento em que necessitamos com urgência de uma trégua para respirar o ar da tranquilidade perdida.

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