A Casapueblo é uma casa escultura, localizada em Punta Ballena a 13km da badalada Punta del Este no Uruguai. Construída pelo artista uruguaio Carlos Paez Vilaró e inaugurada em 1960 é um monumento modelado por suas próprias mãos e ele a construiu sozinho ao longo de 30 anos. Na verdade, Vilaró modelou um sonho.

Visitei a Casapueblo em maio de 2018. É uma casa branca, de silhueta irregular que contempla o sol e o mar de forma desabrida, numa visão de tirar o fôlego, onde quer que a nossa vista alcance e com um detalhe curioso. Vista de cima, sua forma lembra o mapa do Brasil.

A casa nunca foi planejada (como os sonhos que simplesmente brotam e vicejam) e Vilaró a construiu sozinho, ao sabor dos seus sonhos, inspirado   pelas mudanças dos ventos ou das marés, ou pelas diferentes posições do sol ou das fases da lua…em busca da luz talvez.

O nosso grande poeta Vinícius de Moraes, em visita a Vilaró (sim, os poetas costumam se procurar) se inspirou nessa casa e compôs a música “A Casa” para ninar as filhas ainda pequenas do amigo artista, música que ficou famosa na década de 80. Apesar de ser um poema infantil, Vinícius demonstra com a sua genialidade as sensações trazidas pela beleza do lugar com toda a sua estrutura “disforme”.

“Era uma casa muito engraçada/ não tinha teto não tinha nada

Ninguém podia entrar nela não/porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede/porque na casa não tinha parede”

A Casa 90 é uma casa comum, construída por um arquiteto canônico, que se esforçou para otimizar a relação espaço /conforto da melhor forma possível. Mas a Casa 90 aninhou um sonhador que, como Vilaró, não tinha limites para os sonhos. Às vezes parecia que os sonhos não tinham teto, outras vezes os sonhos o deixavam sem chão, muitas vezes sem uma parede para encostar as suas angústias e tantas outras sem um horizonte que acalmasse o seu coração. Ah, esse desassossego dos sonhadores!

Era a partir da Casa 90 que ele buscava encontrar caminhos, porque nessa era de infinitas possibilidades nem todos os caminhos levam a Roma. Eles são difusos, confusos, complexos. Estão além dos limites, das fronteiras, muitas vezes além do imaginável no sentido da ética, para o bem e para o mal. “Navegar é preciso, viver não é preciso”. E era assim que ele vivia, sem muita precisão mas navegando sempre.

Peço, com muita humildade, a mais um gigante da poesia brasileira, Carlos Drummond de Andrade que me ajude nesse tema para mim tão precioso/doloroso.

“Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas

tão fatigadas/nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha

uma pedra/ tinha  uma pedra no meio do caminho…”

Como Drummond, jamais esquecerei que na Casa 90 havia um sonhador, havia um sonhador na Casa 90.

Hoje não há. Apenas o sonho insiste em bruxulear e me consola saber que os sonhos não morrem jamais!

Por, Ednalva Freire Caetano

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