Antes que os primeiros clientes ocupem os corredores do Mercado Antônio Franco, quando o centro de Aracaju ainda desperta lentamente, o mercado já está em movimento. O silêncio da madrugada é quebrado pelo arrastar de baldes, pelo som da água correndo nos primeiros lavatórios, pelo vai e vem discreto de quem prepara o espaço para mais um dia de funcionamento. O chão é lavado, os banheiros higienizados, os boxes ganham forma. Às 7h em ponto, o mercado fica de portas abertas, para receber quem o visita.

No ano em que o espaço completa 100 anos, essa história centenária também é escrita por quem cuida diariamente da limpeza, da manutenção e da ordem que permitem o funcionamento do mercado. São profissionais que acompanham o ritmo do lugar há décadas, atravessando madrugadas, turnos e gerações.

Com cerca de 185 permissionários e uma diversidade que reflete o cotidiano da capital sergipana, o Mercado Antônio Franco abriga atividades que vão do artesanato à gastronomia, passando por barbearias, salões de beleza, ferragens, armarinhos, floriculturas, livraria, alfaiataria, bares, restaurantes e pequenos comércios especializados. São dezenas de boxes que funcionam diariamente e fazem do mercado um espaço marcado pela circulação constante de moradores, trabalhadores e turistas.

Essa diversidade de atividades e o intenso fluxo de pessoas tornam ainda mais essencial o trabalho de quem atua nos bastidores, garantindo higiene, organização e segurança, não só do mercado Antônio Franco, mas também do Thales Ferraz e do Virgínia Leite Franco. Já que ao longo da semana eles se revezam para deixar o trio de mercados centrais da capital limpo e agradável para os frequentadores.

Ainda de madrugada, Eraldo Jesus chega ao mercado Antônio Franco. Acorda às quatro da manhã, sai de casa às cinco e, por volta das cinco e meia, já está no Antônio Franco. “Às seis horas eu começo minha jornada”, diz. Há oito anos Eraldo responde pela parte hidráulica, cuidando dos banheiros e dos setores de peixe, carne e dos boxes com água encanada. A jornada atravessa o dia, mas o entusiasmo permanece. “A melhor coisa é trabalhar no que a gente gosta”, destaca Eraldo. Com o tempo de trabalho, ele diz que construiu relações próximas com permissionários e colegas. “Eu me sinto muito satisfeito de trabalhar aqui. Venho feliz todos os dias.”, conta.

Para ele, o prazer pelo trabalho se reflete no ambiente. “Nunca cheguei aqui de mau humor. Quando você gosta do que faz, trata bem as pessoas.” Em um mercado centenário, Eraldo reforça a importância do reconhecimento. “Eu só cresço quando a empresa cresce também. Valorizar o profissional faz toda a diferença.”, destaca.

Na rotina de Ireda Ferreira, o trabalho no mercado começa ainda dentro de casa. Quando a madrugada mal começou, ela já está na cozinha, preparando o almoço para ela e para os filhos. “Acordo à meia-noite e meia, faço tudo com calma e deixo pronto nas vasilhinhas”, conta.

Depois de organizar as refeições, Ireda segue para o mercado, onde chega por volta das cinco da manhã. Às seis horas em ponto, inicia o expediente. Ao longo de 22 anos de atuação, passou por todos os setores da limpeza, em um trabalho que ocorre em formato de rodízio. “A gente vai para o setor de carne, peixe, varrição, onde precisar. Estou sempre pronta para dar o meu melhor”, afirma.

A convivência diária criou vínculos fortes com os colegas de trabalho. “Eu gosto de trabalhar aqui. Me dou bem com todo mundo. A gente se ajuda bastante e todos buscam deixar o mercado bem-arrumado.” Atenta ao movimento, Ireda diz que reconhece facilmente quem chega pela primeira vez, principalmente os turistas. “Muitos pedem informação. Turista gosta muito do artesanato e da culinária. Eles sempre perguntam onde fica cada coisa e elogiam bastante”, lembra.

Para Ireda, valorizar quem trabalha nos bastidores é reconhecer quem ajuda a manter o mercado vivo. “Tem muita gente por trás para tudo funcionar. É importante lembrar disso, principalmente agora, nos 100 anos do mercado. Estou feliz por esse reconhecimento”, diz.

Para garantir o funcionamento de um espaço que reúne quase duas centenas de permissionários e atividades distintas, o Mercado Antônio Franco passa por ações contínuas e regulares de limpeza, higienização e dedetização, coordenadas pela Empresa Municipal de Serviços Urbanos (Emsurb).

De acordo com o Diretor de Espaços Públicos e Abastecimento da Emsurb (Direpa/Emsurb), Bertulino Menezes, a dedetização é realizada por equipe especializada, conforme cronograma fixo, todas as terças e quintas-feiras, no período noturno. “Além disso, são executadas a limpeza e lavagem das portas e entradas, a limpeza geral aos domingos, após o fechamento do mercado, e a limpeza quinzenal da parte superior, incluindo o anel das torres e demais estruturas elevadas”, informa.

Além do funcionamento dessa parte operacional, a engrenagem que sustenta o funcionamento diário do Mercado Antônio Franco começa muito antes da chegada do público. Ela ganha forma no trabalho de quem chega antes das seis da manhã, conhece os caminhos, antecipa as necessidades e prepara o espaço para receber sergipanos e turistas ao longo do dia.

Quando Maria José chega ao mercado antes das seis da manhã, já conhece cada detalhe do espaço. São mais de 20 anos dedicados à equipe de limpeza, especialmente na função de banheirista. “Eu gosto do meu trabalho. Cuido bem, e o pessoal percebe. Isso me deixa bem feliz”, afirma.

Mesmo com o passar do tempo, Maria José diz que o cuidado com o ofício não mudou. “Zelo do meu trabalho como no primeiro dia. Faço com amor.” Na rotina diária, especialmente próximo às frutas e verduras, Maria José se encanta com o cenário. “É bonito de ver as cores, o vai e vem das pessoas. O mercado é vivo. Aqui não tem monotonia, é tudo muito movimentado”, brinca.

Entre colegas e frequentadores, ela diz que construiu amizades duradouras. “A gente cria laços. Isso é uma bênção.” Para Maria José, fazer parte da história do Antônio Franco é motivo de felicidade. Venho trabalhar feliz. Sei que estou ajudando a deixar esse espaço sempre limpo e organizado”, conta.

A colega de profissão, Edna Cardoso, também se diz orgulhosa em trabalhar no Antônio Franco. Para ela, o mercado não é apenas o local de trabalho; é parte da própria vida. A rotina dela começa cedo, com o café preparado em casa e o almoço organizado antes de sair. No mercado, abre o banheiro, separa os materiais e segue com o cuidado diário até o fim da tarde. Ao longo de 23 anos, Edna criou os três filhos com o trabalho realizado no Antônio Franco. “Sustentei minha família aqui”, conta. O filho mais novo, hoje com 17 anos, nasceu quando ela já fazia parte da equipe. “Trabalhei até o último dia. As contrações começaram quando eu estava encerrando o expediente. Graças a Deus meu filho nasceu e deu tudo certo”, lembra.

Edna fala com orgulho do vínculo construído com o espaço. “Sou uma mulher feliz e realizada. Conquistei muitas coisas graças ao trabalho que realizei aqui”, reconhece. Para ela, dar visibilidade aos profissionais da limpeza é também um gesto de justiça. “Às vezes as pessoas olham, mas não enxergam. Por isso é importante mostrar quem está por trás e ajuda a preservar todo esse espaço”, desabafa.

Moradora de São Cristóvão, Luciene Rocha enfrenta diariamente um trajeto longo até o mercado. Acorda por volta das três e vinte da manhã e chega antes das seis, pronta para trabalhar. Atualmente, ela atua em sistema de rodízio, passando por diferentes setores conforme a necessidade. “Aqui é praticamente nossa segunda casa. A gente passa doze horas por dia”, afirma.

“Tenho uma ótima relação com meus colegas de trabalho. Gosto de todos e todos gostam de mim.”, destaca. A presença de turistas também marca a rotina. “Eles elogiam o mercado, a limpeza, a cidade. Dizem que o povo é acolhedor”, ressalta Luciene. No ano do centenário, Luciene expressa um desejo simples e simbólico: “Que o mercado continue sendo bem cuidado, mas sem perder sua história e o jeito acolhedor”, comenta.

Em seus 100 anos de história, o Mercado Antônio Franco também é cenário de quem permanece atuante nos bastidores. Profissionais que atravessam décadas de trabalho e ajudam a manter vivo um dos espaços mais emblemáticos de Aracaju. São eles que, todos os dias, ajudam a preservar a estrutura da inevitável travessia do tempo. No fim das contas, o mercado é feito de gente; gente que limpa, cuida, observa, acolhe, sustenta famílias e constrói histórias silenciosas entre um turno e outro. Como canta Caetano Veloso, “gente é pra brilhar”. E, no Antônio Franco, esse brilho aparece todos os dias, muito antes do sol nascer.

Fonte, Agência Aracaju de Notícias.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

  • (Com)Vivências: Mercado Antônio Franco, 100 anos de história construída também nos bastidores

    Antes que os primeiros clientes ocupem os corredores do Mercado [...]

  • Câmara aprova projeto do Governo do Brasil para modernizar e fortalecer serviço público

    O Governo do Brasil avança em mais uma etapa da [...]

  • Coluna Foco no Interior, por Keizer Santos

    Vereadora de Arauá questiona contratos de locação de veículos que [...]

  • Pré-candidatos fazem contas e se preparam para a abertura da janela partidária

    No período de 6 de março a 5 de abril [...]

  • Carol Asencio, da BeFly Travel Aracaju, é destaque em Empreendedorismo no Prêmio Olho Vivo 2025

    A noite da última quinta-feira foi marcada por uma celebração [...]