Aracaju entra no roteiro de um dos documentários brasileiros mais sensíveis dos últimos anos. Meu Amigo Lorenzo, dirigido por André Luiz Oliveira, chega à capital sergipana em maio com programação especial que inclui sessão com legendas acessíveis, debate aberto ao público e a presença de Clarisse Prestes — a musicoterapeuta que está no coração do filme e que, desta vez, vem pessoalmente conduzir a conversa com o público.

As exibições acontecem no Cinema do Centro (@cinemadocentro) e integram o Circuito Inclusivo Petrobras, iniciativa nacional que promove a circulação de obras com temáticas sociais e ações concretas de acessibilidade.

Um filme que nasceu de uma escuta

Com 96 minutos e classificação livre, o documentário acompanha ao longo de 15 anos a relação entre o diretor André Luiz Oliveira e Lorenzo Barreto, jovem autista, a partir de sessões de musicoterapia conduzidas por Clarisse Prestes. O que começou como um simples convite para registrar esses encontros se transformou em algo raro no cinema brasileiro: um acompanhamento íntimo e continuado de uma vida — da infância à juventude —, revelando a musicalidade de Lorenzo, suas formas próprias de comunicar e sua trajetória de desenvolvimento e autonomia.

Sem narrações explicativas ou condução didática, o filme aposta no olhar direto e no tempo como matéria narrativa. A música, ali, não é apenas ferramenta terapêutica — é linguagem, é vínculo, é o fio que une todos os personagens da história.

O reconhecimento veio também de fora do Brasil: Meu Amigo Lorenzo recebeu o prêmio de Melhor Longa-Metragem no Festival Primavera do Cine, em Vigo, na Galícia, confirmando uma obra que atravessa fronteiras e interessa a públicos muito além do universo do autismo.

Clarisse Prestes em Aracaju

A grande atração da passagem do filme por Aracaju é a presença de Clarisse Prestes, musicoterapeuta e um dos pilares da história contada pelo documentário. Não se trata de uma convidada externa ao filme — Clarisse é parte constitutiva dele. Foi ela quem abriu as portas das sessões com Lorenzo para a câmera, ela quem construiu, ao longo de anos, a relação terapêutica que o filme acompanha com tanta delicadeza.

Tê-la no debate, de acordo com os produtores, é uma oportunidade rara de ouvir, em primeira pessoa, como se dá o trabalho da musicoterapia com pessoas autistas, o que significa acolher sem explicar, e de que forma a câmera e a música coexistiram naquele espaço de cuidado por mais de uma década.

A distribuição que chega onde o cinema independente raramente vai

A circulação de Meu Amigo Lorenzo faz parte de um projeto aprovado entre mais de 8 mil inscritos no último edital cultural da Petrobras — um dos 140 selecionados. A proposta é uma distribuição independente e regionalizada, que passa pelas capitais Recife, João Pessoa, Aracaju, Maceió, Fortaleza, Palmas, Cuiabá e Goiânia. Uma aposta deliberada em levar o cinema brasileiro a territórios que o circuito tradicional frequentemente ignora.

Em cada cidade, as sessões comentadas ampliam o debate sobre autismo, inclusão e práticas terapêuticas baseadas no acolhimento — transformando cada exibição em um evento, não apenas em uma sessão de cinema.

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