Por Suyene Correia/[email protected]

Para quem ainda não conferiu “Ayka” do diretor cazaque Sergey Dvortsevoy, provavelmente, sua última chance de conferi-lo no cinema, será nesta segunda, 22/04, às 14h) no Cinema Vitória (Rua do Turista, centro de Aracaju).

Centrado na personagem título, muito bem  interpretada por Samal Yeslyamova (Melhor Atriz no Festival de Cannes 2018), a narrativa segue a jornada da jovem parturiente que abandona seu filho na maternidade. A maneira como ela foge da unidade hospitalar vai sendo justificada, gradativamente,  pelas condições com que ela vive na capital russa: refugiada do Quirguistão, sobrevivendo de sub-empregos e fugindo de agiotas.

Com a licença de trabalho vencida e vivendo numa ocupação para refugiados dos países, que outrora faziam parte da União Soviética, Ayka submete-se a situações limites para angariar o montante da dívida e se safar, ilesa, dos cobradores. Dvortsevoy não dá uma trégua à sua personagem e potencializa ainda mais seu sofrimento, quando faz o corpo de Ayka sangrar e suar (por conta das consequências dos descuidos no pós-parto)  e quase congelar (devido à nevasca que atinge Moscou).

Com a câmera na mão, seguindo Ayka bem de perto e a todo instante, o diretor do hipnótico “Tulpan” (2008), não dá espaço para o sentimentalismo barato até os 2/3 iniciais da narrativa. Porém, basta a protagonista adentrar no mundo dos animais- uma clínica veterinária, onde vai substituir uma funcionária da limpeza- para que a narrativa descambe para situações um tanto apelativas,  metaforicamente amadoras, como a cena em que aparece a cachorrinha da raça duschund e seus filhotes.

Talvez, o principal problema dessa co-produção que envolve seis países (Polônia, Cazaquistão, França, Alemanha, Rússia e China), seja uma certa displicência do diretor em não se aprofundar em temas como imigração, trabalho escravo e saúde pública, trocando a reflexão sobre esses e outros temas urgentes por uma busca pelo “cinema verdade”, mais naturalista, carregado de ações. Nesse aspecto, Ayka dá seu “sangue, suor e lágrimas” de forma incessante, parecendo uma fortaleza inquebrantável, mas o diretor nos dá pouca chance para entender melhor a relação dessa mulher solitária com o mundo que a rodeia.

É um filme que vale mais  pela perfomance visceral de Samal Yeslyamova, do que pelas escolhas narrativas de Sergey Dvortsevoy. De qualquer forma, por conta da escassez de produções desse país longínquo que chegam ao Brasil e sua seleção para lista dos nove pré-indicados ao Oscar deste ano, na categoria Filme Estrangeiro, torna-se quase obrigatório assistir a “Ayka” que foi distribuído em circuito comercial pela Zeta Filmes.

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