Antes de conseguir uma cadeira na Câmara Municipal de Aracaju, o vereador Soneca (PSD) viveu na pele a realidade de quem sai de casa todo santo dia sem saber se vai ter dinheiro para voltar. Ele trabalhou como flanelinha e tem muito orgulho dessa história. E foi justamente por conhecer essa realidade que o parlamentar se levantou contra o recurso do vereador Lúcio Flávio ao Projeto de Lei nº 399/2025, que proibia os flanelinhas de trabalharem no âmbito do município de Aracaju.

O texto do recurso apresentado hoje, 09, pelo vereador Lúcio Flávio pretendia punir e apertar o cerco contra quem trabalha na rua. Mas o recurso foi rejeitado pela maioria dos parlamentares por 16 votos contrários e dois votos a favor, após a forte defesa de Soneca. No final, prevaleceu a decisão da Comissão de Justiça, que rejeitou o projeto afirmando sua inconstitucionalidade, arquivando de vez a ideia.

Na hora de justificar o seu voto, o parlamentar não falou só como político. Falou como alguém que já esteve do outro lado da moeda, dependendo do asfalto para sobreviver e trazer o pão para casa.“Senhor presidente, com todo respeito ao vereador Lúcio Flávio, mas eu já fui flanelinha com muito orgulho. Eu já senti na pele e, quando chega a lei, o pequeno é que sofre. Vamos derrubar esse recurso porque mexer com o pequeno é muito fácil; agora, tem um monte de gente fazendo festa em ambientes públicos e ninguém fala nada”, afirmou.

“Não é porque é flanelinha que não é trabalhador”

Logo após a votação, em entrevista, Soneca voltou a defender a profissão. Relembrou os anos em que trabalhou na Praça da Imprensa, em Aracaju. Para o legislador, essa memória é o que o faz defender os guardadores de carro com unhas e dentes.

“Sou ex-flanelinha. Trabalhei muitos anos ali na Praça da Imprensa. Então, esse projeto veio com muitos vícios, veio proibindo os flanelinhas de atuarem em área pública. E eu não poderia votar contra o meu passado”, explicou.

O vereador mandou um recado, questionando o que seria dessas famílias se os pais fossem proibidos de trabalhar na rua. “Como é que um pai de família sai de manhã de sua casa atrás de seu sustento para seus familiares e é impedido de trabalhar, de olhar um carro numa praça ou em qualquer espaço público? Se proibir, para onde vão esses pais de família?”, questionou.

Soneca também contou uma história de quando ainda era flanelinha. Ele disse que um motorista bêbado foi agressivo quando ele tentou ajudar o homem a entrar no carro. “Ele veio com truculência para cima de mim porque fui ajudar a entrar no carro e eu recebi um tapa no rosto”, relembrou.

O vereador usou esse exemplo para questionar como os trabalhadores iam se defender se a fiscalização chegasse pesado em cima deles. “Como é que esse flanelinha vai se defender, dizer que levou um tapa de um condutor embriagado? Ou seja, eu vejo um projeto de lei em que você está mutilando o pequeno”, desabafou.

O vereador também lembrou que a Guarda Municipal ainda não usa câmeras nos coletes, o que dificulta saber o que realmente acontece nas abordagens. “A Guarda tem um trabalho brilhante — e não estou falando aqui que a Guarda não fará seu papel, não é isso. Aí, na hora que chegar a Guarda, vocês acham que a Guarda vai dar voz ao dono do carro ou ao flanelinha?”, perguntou.

Defesa do flanelinha trabalhador

Para Soneca, a saída não é expulsar o trabalhador da rua, mas sim dar condições para ele melhorar de vida. “Agora, traga um projeto para esta Casa de capacitação, de dar condições de trabalho, dar um incentivo de qualificação, dar uma bolsa municipal de apoio”, cobrou.

Soneca ressaltou que a vida de quem está na rua é matar um leão por dia. “Muitos saem de casa para trabalhar e não sabem o quanto vão ganhar. Muitos só saem com o valor da passagem. Um projeto nessa esfera eu apoio e voto favorável. Porque eu sei o que eu vivi como flanelinha”, garantiu.

O parlamentar também criticou o fato de que grandes eventos usam o espaço público e ninguém fala nada, mas o trabalhador da rua é cobrado. “Não vejo ninguém querer acabar com festas em espaços públicos, em que tem gente que ganha milhões, mas um flanelinha não pode olhar um carro em espaço público. Estão pegando o pequeno e crucificando”, criticou.

Com a vitória e o arquivamento do projeto, Soneca agradeceu aos colegas que votaram junto com ele e garantiu que o seu lado sempre será o do trabalhador mais humilde. “Por isso votei contrário e votarei quantas vezes for preciso se chegar um projeto nessa situação aqui. Me manifestei contrário e fiz uma campanha aqui dentro. Quero agradecer a cada vereador e vereadora que entendeu a realidade dessa categoria”, finalizou.

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