Sob o olhar de Frida Kahlo – Por Ednalva Freire


Do quadro emoldurado em madeira branca, colocado na parede da sala, ela se destaca extremamente colorida com o seu arranjo floral sobre a cabeça, e insiste em me olhar e me seguir, como encantada, na tentativa de me dizer alguma coisa. Ou sou eu que me encontro ávida por alguma revelação que justifique os rumos da história “esperando…esperando…esperando o trem que não vem…que não vem…que não vem?”

Quando a vida começou a desabrochar para Frida um acidente de ônibus a trespassou, mas ela foi forte o bastante para sobreviver a despeito dele, e se impor às vicissitudes que a acompanharam pela vida afora até que a sua natureza foi esgotada. Mas, somente quando a sua natureza foi esgotada ela sucumbiu.

Segundo Erasmo de Roterdã, teólogo e filósofo neerlandês cuja obra foi produzida no século XVI, durante o período da Reforma Protestante, “nenhum homem deve se desesperar, desde que haja fôlego dentro dele”. E só quando lhe faltou o fôlego Frida ensaiou e produziu a sua saída de cena.

Hugh Latimer, membro do Clare College, Cambridge, bispo de Worcester e portanto chefe da Igreja da Inglaterra, na abertura do parlamento inglês em 1536 faz o seguinte questionamento em forma de afirmação, tentando esclarecer sobre a responsabilidade daqueles que teriam que governar sobre o povo: “Defina primeiro estas três coisas: o que é prudência; o que é o mundo; o que é a luz; e quem são os filhos do mundo, quem são os filhos da luz.” Acho que são sobre essas questões que a Frida, que se considerava “filha da revolução” (Revolução Mexicana de 1910) e, tendo acompanhado todas as reviravoltas do mundo na primeira metade do século passado, quer que eu reflita, já que me acompanha insistentemente com olhos inquiridores.

O que é prudência? Segundo Pitágoras a prudência é o olho de todas as virtudes. Aristóteles afirma que a prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para o homem, conferindo-lhe sabedoria do agir, para o agir e no agir. Sendo assim a prudência é a gestora de todas as virtudes – o olho. Mais modernamente Comte-Sponville, filósofo francês do século passado, no seu Pequeno tratado das grandes virtudes, afirma que a prudência determina o que é

necessário escolher e o que é necessário evitar, estando, assim a serviço de uma boa vontade.

Eu sei, Frida, que agora você vai me perguntar onde e com quem está essa virtude, tão bem definida desde os primórdios da civilização, ou se ela se perdeu ao longo do caminho.

Eu te responderei que não sei com quem está a prudência entre os que governam, aqui colocado em sentido lato. Também não sei o que é o mundo e sua vastidão embora saiba o que é a luz. Mais difícil ainda é discernir quem são os filhos do mundo e quem são os filhos da luz, neste cenário no qual o neon oblitera tudo e pinceladas de ignorância teimam em cobrir de forma tão arrogante (como só a ignorância sabe ser) o conhecimento acumulado à custa de muito trabalho e dedicação ao longo do último século, deste século cuja metade você desfrutou com tanta ânsia de viver, artista que era.

Penso que você imaginava que viveríamos numa curva ascendente de progresso e ciência que nos levaria fatalmente a viver a serviço de uma boa vontade para com todos os homens sob o domínio da prudência. Mas não é assim. No século que estamos vivendo ignoramos todas as lições do passado. Voltamos aos guetos, aos pogroms. A intolerância é a nossa marca registrada. Nada de prudência. Nada de luz. O conhecimento está sendo substituído pela magia, pelas formas simplórias.

Sabe, Frida, você poderia deixar de me seguir por toda a sala cada vez que eu apareço. Ou me olhar com olhos menos tristes e descrentes. Ou são os meus olhos que estão assim e eu os reflito nos seus? A minha inquietação sinaliza que ainda me resta fôlego!

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