A política, a ciência e o campo das aparências – Por Antonio José Pereira Filho


O filósofo Plutarco (46-120 dC), autor de A arte de governar, afirma que o povo é o espelho da conduta moral no qual o governante deve ver a si mesmo. Para Plutarco, “o político vive num palco exposto a todos”, por isso, deve “ordenar e tratar cuidadosamente as suas maneiras” (Plutarco, op. Cit, p. 15). O político tem, portanto, na visão de Plutarco, um duplo ser: o que se vê por fora, na fachada que se mostra ao público, e que, justamente por isso, mereceria todo zelo e cuidado, e o que se vê por dentro, na opacidade da vida privada, pois esta não se mostra diretamente ao espectador. Daí que o povo deseje olhar o que há por trás da máscara, atrás do palco, na vida íntima, no recanto do lar, onde supostamente mostramos nosso outro lado. Com efeito, diz Plutarco, “se uma mancha ou verruga no rosto é mais repugnante do que todas as cicatrizes do corpo, também os pequenos desvios parecem grandes quando os vemos na vida dos soberanos e políticos” (Plutarco, op. Cit. Idem). Contrariando Plutarco, pode-se dizer que talvez fosse assim nos tempos da melhor fase de Roma, quando havia decoro e virtude e o povo era um espelho de moralidade, mas, no triste Brasil dos nossos dias, o que vemos é um espetáculo deprimente, uma encenação tosca com péssimos atores, que, quando desmascarados, revelam-se tão cínicos, quanto cruéis. Ainda assim há quem aplauda a tragédia e se deleite com o riso bestial do opressor. Já se disse que cada sociedade tem o governo que merece. O que vemos hoje no Brasil pode ser encarado, portanto, como o reflexo do que ocorre nas entranhas de parcela da população, governada não pelo cérebro, mas pelas tripas ou pelo que há dentro delas. Causa repugnância que seja assim, e a sociedade brasileira começa a sentir a necessidade de expurgar o mal que agora lhe causa horror.

Diante deste quadro deplorável, a impressão é de que foi a Natureza – que às vezes parece ser mãe, às vezes madrasta – que trouxe uma praga para nos livrar de uma outra, ou seja, para que se revelasse a podridão das estranhas do Brasil varonil e do Brasil profundo. Mas não é racional acreditar que a Natureza tenha essa ou alguma finalidade ou se preocupe com nossa espécie ou com o fracasso dos brasileiros, ao contrário, tudo que acontece na Natureza segue uma necessidade interna, quer queiramos ou não. Isso quer dizer que tem coisas que estão no nosso poder, tem outras que não estão. Podemos jogar mil vezes uma pedra para o alto, mas jamais podemos ensiná-la a não cair. Se chove, não podemos fazer com que não chova, o que podemos

é decidir buscar um abrigo para não se molhar. Ou seja: se a Natureza é da ordem do necessário, diante dela podemos fazer escolhas, e fazer escolhas pertence à política, que não é apenas o campo de aparência, mas o campo do possível. Uma das funções da ciência é exatamente essa, nos instrumentalizar para tomar as melhores decisões possíveis, tornando a vida mais segura. Nesse quesito, a conduta do governo brasileiro é absolutamente catastrófica e seu desprezo pela ciência vem sendo exposto nos inúmeros depoimentos da famigerada CPI da Covid.

Na última semana, por exemplo, ficou nítido o contraste entre as posições de duas figuras exemplares: a médica Nise Yamaguchi, colaboradora do governo e entusiasta de suas políticas de saúde, e a médica e cientista Luana Araújo, uma jovem impetuosa, que fala olhando nos olhos, com absoluta segurança do que diz e que, não fosse as posições que defende, iria compor o quadro técnico do Ministério da Saúde. Vista na superfície, Yamaguchi mostrou ser uma simpática senhora, de fala mansa, gentil e trejeitos tímidos, e que, a julgar pelas aparências, seria detentora de algum saber científico. Mas como não se deve julgar o livro pela capa, logo a máscara da pseudocientista caiu, juntamente com sua defesa do uso da cloroquina, medicamento sabidamente ineficaz no combate ao coronavírus. Mais grave ainda foi sua defesa da assim chamada “imunidade de rebanho” que, além de ser completamente ineficaz, segundo dados do The New York Times, se adotada integralmente, levaria à morte ao menos 1, 4 milhão de cidadãos brasileiros indefesos. Ao que tudo indica, essa política catastrófica foi adotada na cidade de Manaus, numa espécie de laboratório vivo, que se tornou o epicentro da segunda onda da Covid no Brasil. Quanto a isso, nunca é demais lembrar de como médicos inescrupulosos estiveram na vanguarda das estratégias genocidas do nazismo. Não cabe aqui aferir o grau de cumplicidade ou ingenuidade de Yamaguchi na defesa da pseudociência, mas a infectologista Luana Araújo, mostrou por a + b, baseada em dados concretos, o caráter absurdo desta estratégia. Além disso, a jovem cientista, soube mover-se bem no campo da aparência. Sua retórica, elogiada inclusive pela tropa de choque do governo, foi lapidar. Ao criticar as políticas púbicas do Ministério da Saúde, arrematou: “Estamos na vanguarda da estupidez. É como se estivéssemos decidindo de que lado da terra plana a gente vai pular”.

Em face do absurdo, a população brasileira começa a se mexer, pois no terreno movediço da política, recoberto por imagens que se desfazem ou se cristalizam, o governante pode ganhar ou perder quando assume os riscos do ator político diante de uma plateia que às vezes é difícil de manobrar e que não raro está disposta a também atuar, sobretudo quando é a vida e a liberdade que estão em jogo.

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