O transporte coletivo e os abalos em Aracaju


Pressionadas entre a população e o governo, empresas de ônibus aguardam ansiosas por um projeto claro de atuação sem mais prejuízos para o segmento

Por Edvar Freire Caetano – CinformOnline

A pandemia tomou conta de todas as atenções ao redor do mundo. Em princípio, lentamente, parecendo coisa distante, lá dos confins da Ásia. Depois, retirando a paz de todos e os meios de subsistência de mais de um bilhão de pessoas, segundo a própria Organização Mundial de Saúde.

A modernidade, com a extraordinária pluralidade de meios de transporte coletivo, que leva e traz pessoas de canto a canto do planeta, encarregou-se de oferecer a capilaridade necessária ao vírus para atormentar a todos os habitantes humanos do planeta.

Segmentos, os mais diversos, têm pago uma conta muito alta pela catástrofe sem precedentes, porque, jamais um flagelo afetou a humanidade do jeito desse malsinado coronavírus. Um mísero filamento de parte de um DNA, invisível de tão minúsculo, que grassa pelas mais remotas tribos africanas, vai aos confins de Oceania, invade territórios indígenas e leva tudo de roldão, ceifando vidas às centenas de milhares, sem distinção de raça, credo, posição social. Por sorte, tem poupado crianças.

Dos setores produtivos, esses que geram, de fato, emprego e renda, ou seja, que são bons para patrões, empregados e para o Estado, um dos que mais têm sofrido com a indecisão dos governos, aliada ao clamor da população é, sem dúvida, o setor de transporte urbano de passageiros, em todo o Brasil, mas, no caso específico aqui em Aracaju.

Uma “decisão” a cada semana – A população não se cansa de irritar-se com as constantes modificações, promessas, ameaças, enfim, com a falta de um planejamento estratégico que dê uma luz, pelo menos com relativa claridade, para que esse povo sinta confiança nas diretrizes governamentais, sem esse chavão de “estamos todos aprendendo com a crise”.

As empresas de transporte coletivo oscilam entre a esperança e a perplexidade diante de cada novo decreto, alguns deles altamente polêmicos, como o que vale a partir de hoje ¬ Decreto Nº 6.140, de 19 de maio de 2020 ¬, estabelecendo que os idosos, acima de 65 anos, só podem utilizar a gratuidade entre as 10 da manhã e as 15 horas.

O argumento do prefeito é de que essa medida tem por objetivo proteger os idosos, já que eles correspondem a 70% dos óbitos por covid-19 em Sergipe. Só que, por outro lado, essa medida atinge direitos conquistados, e coloca os ônibus na alça de mira da população, já que muitos desses idosos trabalham e vão ter que se deslocar, mesmo pagando a passagem.

Como ficam as empresas? Para uma análise responsável, desligada de qualquer viés ideológico, é preciso ver o lado da empresa, que é responsável por milhares de empregados, aquisição e manutenção de ônibus, gastos com insumos, como óleo Diesel, óleo lubrificante, pneus, licenciamento, impostos e taxas, dentre outros, todos eles itens que oneram a planilha de custos da atividade.

O Setransp, sindicato patronal, que reúne empresas de transporte coletivo urbano, tem reivindicado compensação pelos prejuízos acumulados, fruto da obrigatoriedade de colocar uma frota em disponibilidade, sem que ocorra a contrapartida de faturamento e sem que o poder público promova uma compensação.

Recentemente, mais precisamente na primeira semana deste mês, o Setransp divulgou o resultado de sua planilha de custos mensal, dando conta de um prejuízo de R$10 milhões de reais a cada 30 dias de operação, nas atuais condições.

Demonstrou que se trata de uma álgebra perversa para o setor porque, enquanto o público pagante caiu muito, não ocorreu o mesmo com os portadores de gratuidade, o que faz os carros rodarem obrigatoriamente, para cumprir determinações legais, mas em constante prejuízo.

Daí vem a necessidade de que o setor público intervenha, buscando uma fórmula de compensar o equilíbrio na planilha das empresas, como bem ensina a moderna administração, que se baseia na Teoria dos Jogos, em que o negócio só é bom quando as duas partes ganham, ou seja, ao invés do “perde-e-ganha”, em que um lado pode falir, utiliza-se o “ganha-ganha”.

Ações de enfrentamento – A população tem acompanhado o esforço dessas empresas, e, particularmente do Setransp para colaborar com as autoridades e com a população, seja através de medidas sanitárias, como higienização nos terminais e nos ônibus, seja na capacitação dos motoristas e cobradores para orientar aos passageiros, por exemplo, no uso obrigatório da máscara.

Aliás, por conta disso, muitos motoristas e cobradores estão sendo até ameaçados, já que boa parte da população acredita que não é atribuição desses profissionais dar orientação aos passageiros, e isso acontece em várias linhas da periferia de Aracaju e também nos bairros habitados pelos mais bem-sucedidos.

Tempo para reflexão – Neste de dia 21 de maio completaram-se três anos do início da Greve dos Caminhoneiros, que abalou o país, um movimento de triste recordação, mas que surgiu de uma falta de diálogo e acordo entre empresas de transporte de carga e governo, como ficou amplamente reconhecido. Ou seja, foram os empresários asfixiados, e não os caminhoneiros, que iniciaram o movimento.

Claro que este risco não ameaça a pacífica Aracaju, pois é sabido que existe um clima profissional de cooperação entre o segmento de transporte coletivo urbano e o poder público, sempre em busca de satisfazer, da melhor forma possível, o usuário do transporte coletivo no município.

É de se imaginar que pode haver um caminho de acordo, talvez com desoneração de impostos e taxas, por exemplo, sobre os insumos mais expressivos da cadeia produtiva; suspensão do licenciamento dos ônibus (parceria com o Estado), enquanto durar a pandemia, enfim, isso ficaria a cargo dos técnicos, porém, em demanda de urgência, porque o tempo passa rápido e as obrigações não esperam.

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