O primeiro milhão ninguém esquece


Shirley Vidal

Vencer na vida talvez seja o motivo principal de muita gente acordar e se organizar para mais um dia onde terá de aguentar aquele chefe insuportável e o trabalho idem. Vejamos aonde o sacrifício por esta ideia fixa de luta e de vencer pode nos levar. Nas minhas andanças por São Paulo para estudar, há uns dois anos, conheci um libanês. Para se ter ideia, tem mais libaneses na capital paulista do que no próprio Líbano. Pois bem, como se sabe, culturalmente o povo libanês é bastante trabalhador e dado ao comércio. Com 25 anos, Summer (pseudônimo) já havia ganho seu primeiro milhão de dólares. Minha curiosidade sem limites não tardou a entender como. Eis a história dele. Formado em Design de Joias em Nova Iorque, pois a família de ourives tinha uma pequena joalheria em Beirute, ele foi convidado na época de sua formatura a trabalhar para o governo do Zimbábue, na África. E apesar da família trabalhar com metais e pedras preciosas, ele não nasceu em berço de ouro, que só por isso justificaria ter tamanha grana em pouco tempo de carreira. O ditador Robert Mugabe decidiu nacionalizar as minas do Zimbábue e precisava de gente capacitada para explorar diamantes. Parece roteiro do filme Diamantes de Sangue né? Mas esta é a pura verdade. É neste contexto que entra a atuação do jovem Summer, que foi viver no distrito do Bronx para tentar conquistar seu sonho americano e acabou indo viver na África, no meio da mata, para produzir riquezas através dos diamantes extraídos daquelas minas de uma nação paupérrima. Contrastes! Com uma esposa e duas filhas vivendo no Líbano, Summer se contentava em vê-las uma ou duas vezes ao ano, para chegar aos 25 com um milhão de dólares na conta. Os diamantes brilhavam, afinal, ele se considerava um homem rico. Em 2017 veio o turbilhão. Os militares derrubaram o poder de Mugabe e todos da cúpula do seu governo, incluindo o nosso personagem libanês, foram presos. Exceto uma casa e alguns poucos bens que Summer tinha no Líbano, todo o restante ficou para trás. Fora deportado com uma mão na frente e outra atrás. Já não tinha mais seu green card americano. “Sem lenço, sem documento, nada nos bolsos ou nas mãos”, diria aquela canção de Caetano, para onde este ser iria? Para a mãe de todos: nosso Brasil. Com aquele português africanizado, Summer me contava tudo enquanto eu bebia mais chá na ausência de uma cachaça para digerir aquela história. O primeiro milhão realmente ninguém esquece. Há uma cultura imposta que precisamos refletir sobre os modelos mentais que nos foram colocados pela família, pela sociedade, pela religião e até pela escola, que seria teoricamente, um ambiente educacional. Este modelo mundialmente difundido sobre como ‘vencer na vida’ já não nos pertence. Despertemos! Summer foi para os EUA desbravar um sonho americano do primeiro milhão. E ele teve. Mas em contrapartida não viu as filhas crescerem, viveu por dez anos imerso numa busca incessante e voraz pelo ter. O quê?Ter mulheres aos seus pés, usufruir poder ilimitado acompanhado dos seus colegas ditadores, ter ao seu alcance qualquer bem material que quisesse: o carro da vez, as roupas de grife. Ele viveu isso. Mas a reflexão é que os tempos mudam, tudo, absolutamente tudo, pode lhe ser tirado, até a própria existência. E qual o sentimento fica? Nele, posso assegurar que foi de dor profunda, abandono, de ter de recomeçar sem fazer ideia por onde. Lembrei-me propositalmente agora de uma canção muito conhecida de Roberto Carlos. “Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”. A letra dela é maravilhosa! Qual será então o primeiro milhão inesquecível que você gostaria de contabilizar? De amigos, sorrisos, viagens, filmes e livros assistidos, etc, ou apenas dinheiro? A esta altura você deve estar achando que esta manchete da crônica foi uma pegadinha. E foi mesmo! Tá cheio de escritores aí aconselhando você a correr atrás do primeiro milhão e dizendo “seja foda!”. Para quem e pra quê, irmão? Quer afirmar seu ego pra quem? Adoro quando Osho relata em seu livro, ‘Fama, fortuna e ambição’, um dos meu prediletos dele, sobre o que é riqueza. E assim finalizo minha reflexão semanal, pois quando já se adquiriu uma percepção íntima de abundância, ao conviver com pessoas em sintonia, ao saborear um alimento delicioso, ao ouvir seu som predileto, aí creio que está a sua alegria em viver. Faça mais do que gosta e se aproxime de gente com a energia que deseja alcançar. O contrário também é recomendado. “A vida precisa de dinheiro, porque a vida precisa de conforto, a vida precisa de boa comida, a vida precisa de boas roupas, boas casas. A vida precisa de bela literatura, música, arte, poesia. A vida é grande! Eu quero que você seja rico em todos os sentidos possíveis – materialmente, psicologicamente, espiritualmente, eu quero que você viva a vida mais rica que já foi vivida sobre a terra,” Osho.

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