Boulos: “a esquerda não pode compor com o MDB no Nordeste”


Guilherme Boulos em ato na porta da Fafen, na manhã de segunda, 14. ( Divulgação)

Pré-candidato à Presidência chega a Sergipe nesta segunda-feira, 14

Por Henrique Maynart

Em agenda oficial no estado de Sergipe nesta segunda-feira, 14, o pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSol) Guilherme Boulos,  falou com exclusividade ao CINFORM na manhã de domingo, 13. Ele abordou parte de sua plataforma de campanha, o papel dos Estados e Municípios no pacto federativo, criticou a PEC do Teto de Gastos e as medidas de austeridade do Governo Temer, falou sobre reforma tributária, sobre as ocupações por moradia no estado, violência policial e sobre a cena política em curso no Nordeste.

Guilherme Castro Boulos tem 35 anos, é paulista e coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Ele é formado em Filosofia e Psicanálise pela Universidade de São Paulo (USP), e é o pré-candidato à Presidência mais jovem do país. Boulos assinou a ficha de filiação ao Partido Socialismo e Liberdade (PSol) no dia 5 de março e presente organizar uma aliança entre o PSol, MTST, PCB e demais movimentos sociais.

EMENDA CONSTITUCIONAL 95 “APROVADA À BALA”

Para o pré-candidato do PSol, a Emenda Constitucional 95, a chamada “PEC do Teto de Gastos”, que prevê congelamento dos investimentos por duas décadas seguidas aprovado em 2016, é um dos elementos mais agravantes do Estado brasileiro, da União aos Estados e Municípios. “Ela (A PEC) esgana o Estado. Esta é uma medida inédita em termos internacionais, nenhum estado do mundo colocou na sua constituição. Ainda mais porque ela foi aprovada à bala, com repressão na porta do Congresso Nacional, sem nenhum diálogo com a população. Isso compromete o Estado brasileiro, ela não prevê o congelamento da dívida pública, mas congela investimento”. Caso eleito, ele pretende organizar um plebiscito para reverter a PEC.

PACTO FEDERATIVO PARA DESAFOGAR ESTADOS E MUNICÍPIOS

Não é novidade que um fator de reclamação de muitos gestores municipais e estaduais é o montante de gasto nas áreas sociais, como educação e saúde, em descompasso com as finanças próprias. Guilherme Boulos defende a constituição de um pacto federativo aumente a responsabilidade da União para áreas sociais. “Estive no Encontro Nacional de Prefeitos e a demanda por mais verba federal é legítima. Dos 5.5% do Produto Interno Bruto (PIB), apenas 1% é gasto pela União, que é a que mais arrecada. Apenas 3.8% dos gastos com o Sistema Único de Saúde (SUS) vêm do Governo Federal, a média de países que possuem sistema semelhante ao SUS é de 8% de investimento, nós precisamos mudar isso. A responsabilidade e competência devem continuar com Estados e Municípios, mas a União precisa contribuir com mais força”, afirmou.

Em entrevista na Fan FM. (Divulgação)

REFORMA TRIBUTÁRIA PROGRESSIVA

Para Guilherme Boulos, o estado Brasileiro necessita de uma reforma tributária que seja progressiva que incida sobre, renda, lucro e propriedade ao invés do consumo. “O Estado brasileiro tributa apenas 2% sobre operações financeiras e de crédito, enquanto que tributa mais de 50% do que consumido, em especial em gêneros alimentícios e de primeira necessidade. É a velha conversa do Hobin Hood às avessas: os pobres e a classe média que paga mais imposto, que é quem mais precisa. Precisamos tributar menos o consumo e a  produção. Quem tem mais precisa  pagar mais”, ressaltou.

OCUPAÇÃO MARIELLE E ANDERSON

Guilherme repudiou a ação da Guarda Municipal de Aracaju que culminou no incidente com a jovem Nathannely Pereira dos Santos, de apenas 18 anos, atingida com um tiro no peito.  “Esta ação que ocorreu foi lastimável, precisamos responsabilizar corretamente seus agentes. Esta é a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza que nós tanto combatemos.” Quanto à negociação dos rumos da Ocupação Marielle e Anderson, que foi desalojada no último sábado ,12, cujos ocupantes  foram encaminhados a um  galpão da Prefeitura localizado na Rua Acre, no bairro Siqueira Campo, Boulos declarou que participará de uma reunião junto ao prefeito Edvaldo Nogueira (PC do B) nesta segunda-feira, para negociar alternativas. “Nossa agenda em Aracaju também cumprirá este papel. É inadmissível que quase 600 famílias fiquem alojadas num galpão como se fosse tralha. Lugar de gente é debaixo de um teto digno”, citou.

CENA POLÍTICA NO NORDESTE

Guilherme criticou de forma contundente as articulações de forças que ele caracteriza de campo progressista, como o PT e o PC do B, junto a setores do MDB em alguns Estados do Nordeste. “Reconheço que ainda acompanho por alto as articulações, mas desde  já afirmou que é absurda a ideia de compor com forças golpistas que deram sustentação do golpe que derrubou a presidenta Dilma em 2016. Sei que há exceções importantes, como o caso do senador Roberto Requião (MDB-PR). Precisamos denunciar estes setores e não compor com ele. Este erro nós da frente que congrega  o PSol, o PCB e o MTST não iremos cometer.”

REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES

Guilherme ressaltou a necessidade de construir uma plataforma de governo que venha a incidir na redução das desigualdades, pautando questões de gênero e raça, além de especificidades de cada região e território. Ele cita o relatório organizado pela Oxfam no ano de 2017, que aponta que os seis homens mais ricos do país possuem um patrimônio equivalente a 100 milhões de brasileiros.  “Há questões estruturais que precisamos enfrentar. O machismo é estrutural em nossa sociedade, precisamos enfrentá-lo combatendo a violência contra a mulher, as desigualdades salariais entre homens e mulheres, chamando para o protagonismo na ação. O racismo é a mesma coisa, não é uma questão de comportamento como dizem por aí, é estrutural. O genocídio da juventude negra nas periferias está estruturado numa formação social que excluiu a população negra dos espaços e direitos, precisamos combater de frente”.

O programa de sua candidatura presidencial será construído através de uma plataforma colaborativa que será apresentada no dia 22 de maio. A iniciativa prevê a realização de 17 encontros públicos que deverão ocorrer em 17 capitais brasileiras, dentre elas Aracaju. “Ainda não fechamos por completo esta agenda. Os debates ocorrerão em junho e a nossa intenção é construir um programa a muitas mãos, com muitas vozes, com o máximo de participação popular”, declarou Boulos.

 

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