Aceitação na Transição Capilar


O cabelo é uma das principais características descritíveis de alguém, seja liso, crespo, cacheado, é algo que marca e interfere na auto-estima de mulheres e homens. Com a popularização de conteúdos produzidos na internet em blogs e canais de youtube, as discussões sobre cabelo natural vêm à tona e a moda da transição capilar surge. Porém, largar as químicas que reduzem volume e alisam o cabelo não é tão simples, o processo muitas vezes é longo e psicologicamente doloroso, o CINFORM reuniu meninas que resolveram descobrir seus cabelos e ter autonomia sobre eles.

CURIOSIDADE

A publicitária Mariceli Lucas não lembra quando começou a alisar o cabelo e por isso havia esquecido como seu cabelo real era. Ao ver os cachos da sua irmã mais nova, Mariceli começou a se questionar se seu cabelo também poderia ser assim.

Foto 1: Arquivo Pessoal; Foto 2: Davi Cavalcante

“Ao ver minha irmã crescendo e o cabelo dela cacheando, eu achei no meu pensamento que o meu seria também, como eu não tinha lembrança do meu real cabelo, desde cedo minha mãe alisava ele. Passei uns 3 meses de tranças nagô, após crescer, eu cortei a parte com química, meu cabelo ficou bem curtinho, mais era tão gostoso, uma sensação de liberdade, praticidade e aceitação INCRIVEL”, conta Mariceli.

A publicitária ainda fala que cuidar dos cabelos naturais exige mais cuidado, mas sem a “noia” de estragar o cabelo na primeira gota de água que cair do céu. “Ele exige mais cuidado com hidratação, mas eu me sinto bem com ele. Não preciso correr de uma chuva, por medo  de ‘estragar’ o mesmo… essas coisas. Posso ir à praia e a noite ir para um show sem me preocupar de ter que escovar”, destaca.

UMA ÚNICA QUÍMICA

A publicitária Ana Chagas começou a alisar seu cabelo ainda nova, como a maioria, aos oitos anos. “Sempre os mesmos, cabelo ruim precisa ser controlado, cabelo liso é cabelo bom, volume é horrível. Eu cresci ouvindo isso. Então mantinha o cabelo sempre controlado”, conta.

Quando começou a pintar o cabelo de vermelho, decidiu abandonar as químicas de alisamento, mas continuou fiel à chapinha. “Até que em 2014, no retiro da igreja, minha chapinha quebrou. Eu chorei feito criança quando perde o brinquedo preferido, e o pior era que meu namorado da época nunca tinha me visto sem chapinha. Esperei ele acordar ansiosamente, afinal eu tinha acordado mais cedo para meu ‘ritual de beleza’. Ele teve a reação que eu menos esperava, ele amou meu cabelo daquela forma, mesmo sem definição, Para Ana existem duas pessoas: uma antes e uma depois da transição ele disse que combinava muito comigo”, disse.

Para Ana os vídeos de Rayza Nicacio, blogueira famosa por seus cachos, também a ajudaram no processo de empoderamento para assumir os cachos. “Eu sempre fui muito curiosa, procurei sobre cremes, tratamento e transição. A minha transição não foi tão sofrida como a de muitas meninas, como meu cabelo era amigo apenas da chapinha, eu cortei as pontas esticadas mais aparentes e o cabelo já ganhou outra vida”, explica.

GERAL EM TRANSIÇÃO

A estudante de direito Emanuelle Christiny decidiu começar a transição há um ano com muita leitura sobre o universo negro e sobre mulheres que têm o seu próprio cabelo e são importantes para o mundo. “Comecei pesquisando. Passei 11 meses com a vontade de ver como seria o meu cabelo natural e ao mesmo tempo com medo do meu eu, se de fato era o que eu queria. As pressões foram grandes. Foi aí que eu encontrei a cultura das tranças. Foi amor à primeira vista. A partir disso eu fiz minha pesquisa de campo, encontrei outras mulheres que passaram pelo mesmo processo e fiz. Mas não foi do nada. Houve uma reeducação de mim mesma, da minha imagem e principalmente de não me importar com os outros”

ESCOLHA

A engenheira e designer de sobrancelhas Isa Ribeiro resolveu parar com os procedimentos de química em seu cabelo com 18 anos, sete anos após ter começado, após esperar um tempo cortou o cabelo curto e aderiu às madeixas naturais. Depois de um tempo, Isa resolveu que alisaria mais uma vez seu cabelo.

“Eu tinha o cabelo alisado desde os 11 anos de idade, com 18 resolvi parar com os procedimentos de química, esperei dois anos e cortei o cabelo bem curtinho, esperei crescer e ele ficou lindo, perfeito. Mas eu tenho uma vida super corrida e não tinha muita paciência, aí alisei de novo por ser mais prático e por me achar mais bonita com ele liso, gosto das duas formas, conheço o meu cabelo e me conheci melhor com todo esse processo e fiz a minha escolha que por enquanto é o liso”, conta Isa, que adota o cabelo liso hoje.

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