Forrozeiro iluminado


Alcymar Monteiro completa 35 anos de carreira em 2018. (Foto: Vieira Neto)

Alcymar Monteiro lança CD em Aracaju e revela sua mediunidade pela primeira vez

Por Henrique Maynart

“Me chame de você, senão eu vou chamar você de senhor”, disparou feito rojão sem esperar a primeira pergunta saltar da boca do entrevistador. Sentado ao canto do restaurante do Hotel Del Canto, os cotovelos à mesa disputando lugar ao sol com pratos e talheres, as mãos entrelaçadas que subiam aos céus a cada réplica, os lábios esticados a mostrar dente por dente tabelando com o par de olhos acesos. Foi assim que Antonio Alcymar Monteiro dos Santos, o Rei do Forró, recebeu a reportagem do CINFORM numa quarta-feira de trânsito e mormaço.

Aproveitando sua passagem por Aracaju no lançamento de seu centésimo segundo – é isso mesmo, CENTÉSIMO SEGUNDO CD – intitulado “Feliz da Vida”, no último sábado, 14, no Gonzagão, Alcymar Monteiro fala sobre o início da carreira, os ensinamentos de Luiz Gonzaga e da cena cultural nordestina. Pela primeira vez em 35 anos de carreira ele fala abertamente – e com exclusividade para o CINFORM – sobre sua espiritualidade e mediunidade. “Pela primeira vez eu digo isso pra você, nunca disse isso pra ninguém porque isso é muito pessoal. E nem sei porque estou dizendo agora.” Alcymar revelou que tem contatos com entidades de outro plano espiritual antes e depois dos shows. Ele também revela que chegou a ver a imagem do  sanfoneiro Dominguinhos, falecido em 2013, ao seu lado em um show no interior da Bahia.

“Eu tenho uma mediunidade muito forte” (Foto: Vieira Neto)

DIZ PAIXÃO

“Aquela música que tirou você do anonimato e te pôs no meio do povo, aquela música que te deu comida quando você não tinha, o abraço sincero…” O clássico “Diz Paixão” gravado junto com a cantora Marinês, no álbum Forroteria em 1986, habita as noites de Alcymar pouco antes do sono tomar conta do corpo. “Ela vem pra minha cabeça porque ela me tirou de uma situação econômica muito difícil. Tinha composto ela há muito tempo, mas ninguém quis cantar. Daí fui eu mesmo cantar, quando apareceu Marinês.” A partir dali o muito virou pouco.

 

SOU FORROZEIRO

A parceria com Marinês só foi possível graças a Luis Gonzaga, que se convenceu do projeto de Alcymar e “carregou” a cantora junto com ele pra gravadora. “Você quer ser forrozeiro ou quer se aproveitar do forró?” Questionou Gonzagão. “Nem quero me aproveitar do forró e nem quero ser forrozeiro. Eu sou forrozeiro”, retrucou sem titubear. Daí então Gonzagão também faria participação nas faixas “ roendo unha” e “cantiga de vem vem”.

“Eu disse que o Nordeste estava sendo discriminado”(Foto: Vieira Neto)

A FALA DA ROÇA

Ele conta uma “bola fora” que deu com Gonzagão na gravação de “roendo unha”, e a partir dali recebeu uma lição sobre língua e cultura popular que levaria pra vida inteira. “Na última frase da primeira estrofe, ele cantou “partiu atrai”. Eu virei e perguntei: “ mas não é “atrás”? Ele virou e perguntou: “ quer me ensinar a cantar, é? Você mora onde? Você precisa ouvir mais o povo pernambucano. Lá é “mai”, “cuscui”, “arroi”, “nois”, “doi”, “trei””. Aí foi que eu pude ver que ele era a raiz, a matriz. “Quando for gravar uma música: grave como ela for falada na roça. Se o matuto soubesse a importância que ele tem ele procurava falar certo, mas ele fala errado e é ali é que tá a essência”.

TODAS AS CORES DO UNIVERSO

A conselho de Luis Gonzaga, ele passa a usar branco em todas as suas aparições públicas a partir do ano de 1989. Era necessário ter uma marca própria. “Veja bem, branco é a mistura de todas as cores do universo. Pode misturar preto, amarelo, tudo, bata no liquidificador que dá branco. O branco também é bom pra luz, é bom pro palco. Se tiver mil pessoas de preto e uma de branco, a de branco aparece mais que as outras mil. “Aí depois não deixaram mais que eu mudasse. Gonzaga estava certo (risos)”.

IRRADIAÇÃO ANTES E DEPOIS DOS SHOWS

Alcymar fala abertamente sobre sua espiritualidade pela primeira vez. Ele revela que tem contato com entes espirituais antes e depois de todos os shows. Frequentador do Centro Espírita Uni Luz, em Recife, ele pretende estudar e trabalhar cada vez mais sua espiritualidade.

“ Todo show, antes do show, coisa de dez minutos… Eu tenho que me segurar senão eu caio. E quando termina também, eu não procuro sair logo. Eu me encosto numa cadeira, num canto (chacoalha os braços). Alguém me pergunta “o que é?” Eu digo “nada, nada”… eu estou numa fase que eu ouço, e ligeiramente a visão, é muito rápido.  Isso é uma coisa que é muito difícil de explicar. É fácil de sentir e difícil de explicar. Eu tenho uma mediunidade muito grande. É algo que preciso conviver pacificamente, me doutrinar, estudar. Você consegue se desassociar disso, mas fugir não.”

DOMINGUINHOS NA BAHIA

“Eu fiz um show em Santa Bárbara, na Bahia. Eu fechei os olhos e anunciei: vou cantar agora Dominguinhos. Quando abri os olhos eu vi uma luz passar assim…. Ele tava do meu lado. Como eu já sei o que era eu já não me assombro mais, porque quem não sabe o que é se assombra e corre. Porque é uma coisa que você não explica. Eu tô comentando pela primeira vez, não tem explicação.”

A FUTILIDADE SEMPRE SE REINVENTA

Crítico ferrenho do que se consolidou como “forró eletrônico” nos anos 90, Alcymar não poupa críticas ao cenário do mercado fonográfico nordestino e brasileiro.  “O mercado piorou, a futilidade ela se aguçou mais. E veio agora a pornofonia,  veio a idolatria ao que não presta. Que não tem música bonita nem feia não, tem música boa e música ruim. E eles fazem uma música ruim, se é que eu posso chamar de música isso viu. Uma mistura de mal gosto com arrogância, com materialidade e de perversidade. Porque destruir a cultura de um povo é um ato de perversidade, porque é a única coisa que fica de um povo. É um trabalho minimamente mercantilista pra ganhar dinheiro, que não é o fundamento da cultura.”

NA HORA DO ALMOÇO COMEM UM BIFE DE BOI ASSADO

“Ser feliz da vida é ver o povo cantar comigo” (Foto: Vieira Neto)

 

O “Rei do Forró” também comentou a tentativa de proibição das vaquejadas a partir da Ação Direta de Inconstitucionalidade ADI 5728, que tramita no Supremo Tribunal Federal. Como cantor diretamente ligado à cultura da vaquejada, Alcymar não deixaria de tomar posição. Chamado para contribuir com o debate em audiência pública no Congresso Nacional, Alcymar acusa a ação por discriminação.

“Eu fui ao Congresso Nacional. Me chamaram e eu fui. Eu disse que o Nordeste estava sendo discriminado, que é uma cultura do Nordeste. E que aqueles ministros que tentaram travar a vaquejada, na hora do almoço comiam um bife de boi assado. Então eu digo que é demagogia, é falta de sinceridade. Na vaquejada tem as regras, hoje é um esporte com regras. Você não pode pegar no rabo do boi, eles vestem com uma capa. Não pode usar espora, não pode usar chicote, a areia tem que ser com um metro e meio de profundidade pra quando o animal cair não se quebre. E pra você levar pro matadouro, matar e comer o bife.”

FELIZ DA VIDA

Há uma indefinição quanto à idade do cantor em virtude de diferença nos registros. Alguns afirmam que ele havia nascido em 1950, outras fontes indicam que seu nascimento data de 1954. Com sessenta e tantos anos das costas, 35 anos de carreira, mais de 800 canções compostas, cerca de 1500 gravadas, 102 álbuns – o número não cansa de assustar – Alcymar quer mais é cantar, e ver o povo cantar com ele. “Ser feliz da vida é ver o povo cantar comigo. Você chega, canta, o povo canta, alegra você. Você não pensa em nada, só pensa em rir, em cantar, isso é o que mais alegra. Porque dinheiro não compra felicidade. A cultura é uma tradução da felicidade de um povo e a música que eu canto ela me completa como ser humano. É muito importante.”

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