O lugar de fala no debate racial


Falar de racismo em um país que viveu mais de 300 anos de escravidão não é fácil. O tema ainda é ignorado por muitos, mesmo com os altos índices de violência contra negros.

Segundo o Atlas da Violência de 2017, de cada 100 pessoas que sofrem homicídio no país 71 são negras. O Atlas também destaca que, entre 2015 e 2005, a variação de homicídios de indivíduos negros em relação aos indivíduos não negros aumentou 171,9 em Sergipe.

Um dos maiores problemas na discussão do tema é “o lugar de fala”, já que todos devem falar sobre o tema, porém sob um olhar distinto. A autora Djamila Ribeiro destaca como deve ser “falar a partir do lugar que você pertence”.

A professora universitária Andreia Depieri, que participa da Comissão de Direitos Humanos na UFS, destaca que todos podem e devem falar sobre racismo. Andreia destaca que, mesmo branca, ela pode falar sobre o tema, já que estuda sistema de justiça criminal, cujo funcionamento tem um efeito perverso sobre a população negra.

“Todo mundo tem que ter empatia pela causa da humanidade, e isso inclui a questão de ser contra o racismo e a xenofobia, que é um princípio ético. Todo mundo deve falar e defender, mas não significa falar no lugar de”, comentou.

Privilégios

Marina Ribeiro, membro do Coletivo de Mulheres Negras Rejane Maria, comenta que pessoas brancas podem sim falar sobre o racismo, já que o racismo não é um problema exclusivo da população negra, porém é necessário cuidado no discurso.

“Quando uma pessoa branca vai falar sobre racismo, ela tem que entender que ela está falando como uma pessoa branca, pessoa que historicamente está em um lugar privilegiado em relação à história da população negra. Ela não pode falar da experiência que um negro passa por ser negro. Como mulher negra eu tenho autonomia para falar, não por experiência individual, mas coletiva. Pessoas negras têm experiências parecidas por serem negras e uma branca nunca vais saber por estar em um patamar diferente”, explica.

Pesquisa

Para discutir o tema o CINFORM realizou uma enquete em seu Instagram questionando: “Pessoas brancas podem discutir o racismo? ”, 85% afirmaram que que sim e 15% negaram que a discursão pode ser realizada por brancos.

O publicitário Caio Vinícius explica que é preciso que as pessoas brancas se envolvam na discussão. “A culpa do racismo existir é dos brancos, logo eles têm que discutir sim. Porém, de um ponto de vista diferente da população Negra, que deve ser a protagonista”, destaca.

O geólogo Flávio Braga vê a importância da propagação da informação. “Só acho que não cabe ao branco dizer quando é ou não racismo, isso cabe a quem está inserido na minoria. Então se for uma discussão sobre características do racismo, deixemos a quem passa por isso. Mas o assunto de forma ampla deve ser discutido por todos, assim a informação é repassada”, declara.

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