Racismo à sergipana


Kleber Renisson, conselheiro federal da OAB

Pessoas que não sofrem racismo relatam ao
CINFORM testemunhos da opressão cotidiana

Por Juliana Paixão

A empresa sueca Hennes et Mauritz (H&M) precisou retirar essa semana uma peça publicitária dos seus canais de comunicação e das lojas por acusações de racismo, em uma publicidade onde um menino negro usava uma camisa “Coolest monkey in the jungle” (o macaco mais legal da selva). Casos de racismo como esse, apesar de absurdos, são comuns, principalmente em países que possuem histórico de escravidão, como o caso do Brasil.

Atualmente, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), 54,9 % dos brasileiros se declaram pardos e negros. Ainda assim, o conselheiro federal da OAB de Sergipe e presidente da Comissão Estadual e vice-presidente da Comissão Nacional de Igualdades da OAB, Kleber Renisson, comenta que ainda falta discussão sobre o racismo na sociedade.

“As pessoas não gostam de discutir a matéria, sempre vira uma polêmica, algumas pessoas preferem dizer que não existe, que é uma coisa inventada. Mas existe e tem que ser discutido, enquanto isso a legislação está evoluindo. E se a sociedade não discutir o tema vai ficar por mais alguns anos, sempre sendo uma coisa a ser construída no futuro, e o futuro é agora”, destacou Kleber, um dos poucos conselheiros negros da OAB em Sergipe – o estado só possui dois.

“RIDÍCULA”

Cinthia Machado, jornalista

A realidade do negro no Brasil é a de possuir menos oportunidades em áreas essenciais. Os relatos de pessoas negras que sofreram algum tipo de preconceito devido à sua cor são muitos, mas os brancos, por não passarem pela situação, acabam se assustando ao presenciar tal crime.

A jornalista Cinthia Machado, que trabalha na assessoria de comunicação de uma faculdade particular na capital sergipana, percebeu que os negros sofrem racismo quando estava em um ônibus e uma senhora comentou sobre o cabelo de uma jovem negra que estava em sua frente. “Uma senhora estava sentada do meu lado apontou para uma menina negra com o cabelo crespo, black e falou: “olhe que coisa ridícula, isso é falta de higiene, é imundície””, contou Cinthia. Apesar de discordar abertamente da mulher, Cinthia afirma que a mesma continuara com as ofensas à garota.

Ela relata que se sentiu mal quando viu o que a jovem passa todos os dias pela cor da sua pele. “Eu me senti péssima, voltei chorando o caminho todo de raiva, porque o que a menina passou, outras meninas passam todos os dias”, destacou.

Vitor presenciou uma cena de racismo com seu amigo Vinicius

INDO URINAR

O contador Vitor Santana presenciou uma cena de racismo que abriu os seus olhos há cerca de dois anos, em um bar no bairro Inácio Barbosa, em Aracaju. Na ocasião, um dos garçons do estabelecimento chamou o amigo de Vitor de “negrinho” de forma pejorativa. “Ele foi urinar onde várias pessoas brancas estavam indo fazer o mesmo e o garçom gritou “aqui não é lugar de mijar, negrinho”. É horrível ver isso, todo mundo é igual”, declarou.

O SUL

Cena que a advogada Fabiana Alves se acostumou a ver por ter uma irmã negra. “Em uma das vezes nos sentimos muito mal. Eu, minha mãe e minha irmã mais nova (que é negra) fomos para a formatura da minha irmã em Santa Catarina. Fomos comer no shopping e não aguentamos os olhares. As pessoas olhavam como se fosse um absurdo uma menina negra andando no shopping. E não disfarçavam ao olhar, olhavam mesmo, discriminando, comentavam entre si”, comentou

“NÃO COMO PORQUE ELA É NEGRA”

Luigi constatou preconceito numa faculdade em SP

O designer Gráfico Luigi Abdias presenciou cenas de racismo em uma grande faculdade de São Paulo, onde sua madrinha, que é negra, trabalhava como cozinheira. “Já presenciei pessoas que não queriam almoçar no restaurante porque a cozinheira era negra, esse para mim foi o maior absurdo que eu já vi com um negro”, contou.

 

MELHORANDO A APARÊNCIA

Rebeca Santana, estudante de Direito, presenciou uma cena de racismo com sua amiga em um salão. A cabelereira tentou induzir a jovem a modificar seu cabelo que, segundo ela, era “ruim”. “Eu fui ao salão com uma amiga negra do cabelo cacheado. Lá, a cabeleireira disse que o cabelo dela “estava ruim demais”, que os produtos de tratamento não fariam o efeito esperado e insistiu para que que ela fizesse alisamento para “melhorar a aparência”. Depois de recusar todas as ofertas de alisamento, minha amiga ouviu que “deve ser bem difícil ser negra já que tem que passar a vida toda tentando melhorar o cabelo e sendo escrava de roupa clara para não escurecer a aparência”, declarou.

A estudante comenta como se sentiu envergonhada ao ver a discriminação. “Eu fiquei indignada! Não sabia se brigava para defender minha amiga, se chorava pelo sofrimento dela ou sentia pena por existir gente tão pobre de espírito e amor no mundo”, citou.

Lucas Mariano motivou Juliana a fazer a matéria

Relato da repórter

“Um dos motivos que me levaram a fazer essa reportagem foi o dia em que presenciei uma cena parecida com a descrita pelos meus entrevistados. Eu estava conversando com um amigo na porta da casa dele – do lado de uma escola infantil no bairro 13 de julho. Negro, ele estava sem camisa e, em um certo momento, percebemos que o segurança da escola começou a se aproximar do carro achando que meu amigo estava tentando me assaltar. Quando o segurança percebeu que estávamos só conversando, ele voltou para o seu posto”.

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