A natureza agoniza na capital do mangue


Imagem aérea do Parque Tramandaí, em janeiro de 2018 (Foto: Davi Costa)

Cenário comum em diversos bairros da capital sergipana, os mangues são importantes não só para a renda e alimentação, mas principalmente para o equilíbrio ecológico da cidade. Mas o que vemos na maior parte de Aracaju, cidade que se desenvolveu sob esse tipo de ecossistema, são mangues transformados em locais de despejo irregular de esgoto e lixo.

A professora e pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Myrna Landim, lamenta que em muitas cidades costeiras, como Aracaju, seja comum o loteamento e venda de terras sem o saneamento básico. O que, segundo ela, é não só um problema ambiental, mas também uma questão de saúde pública.

Por ser um ambiente de transição entre o terrestre e o aquático, muitos animais utilizam o mangue em pelo menos uma fase da vida, além de dependerem do alimento levado do mangue para os mares e rios. “Se você destrói ou contamina esse ambiente, você compromete outro recurso, no caso do camarão alimentar é econômico, que não está diretamente relacionado”, completa Myrna.

Muitos bairros de Aracaju, como o Jardins e 13 de Julho, foram construídos em cima de aterros e até hoje sofrem com as enchentes. Ainda segundo a pesquisadora, isso acontece devido à ocupação do espaço sem respeitar a natureza e a dinâmica do meio ambiente.

“Nós vivemos em uma região litorânea e no nível do mar, então se chover no mês de março – que é a época em que tem marés mais altas – e em um dia de maré alta é o caos. Se aterra? Sim, mas nunca o suficiente para não sofrer as consequências disso”, comenta.

Estudos recentes mostram que os manguezais são importantes aliados no combate ao efeito estufa que causa o aquecimento global, por aprisionarem cerca de quatro vezes mais monóxido de carbono que outros tipos florestais. Eles retêm o composto em suas folhas, galhos, raízes e no seu sedimento, ajudando a impedir a elevação da temperatura média do planeta.

A pesquisadora Myrna Landim explica que o mangue possui um cheiro forte de enxofre devido à decomposição da matéria orgânica. “Eu já coloquei o pé em muito mangue, mas nada se compara ao cheiro do mangue da 13 de Julho. Aquilo não é o cheiro do mangue, é o cheiro do nosso esgoto que é jogado nos canais de maré”, comenta.

Lixo e esgoto tomam conta dos mangues de Aracaju (Foto: Julia Freitas)

Tramandaí
Ao longo desta semana, a reportagem do CINFORM visitou o Parque Ecológico Tramandaí, localizado no bairro Jardins, zona sul de Aracaju. Criado em 1996 através de um decreto assinado pelo então prefeito de Aracaju, José Almeida Lima, a reserva já não possui tanta vida, está entregue ao lixo e ao esgoto.

Nas imagens aéreas feitas pelo fotógrafo do CINFORM, Davi Costa, é possível ver a devastação do parque, além da grande quantidade de lixo e esgoto descartados de forma irregular e criminosa.

Segundo a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema), diversas visitas técnicas foram feitas no Parque Tramandaí e foi constatado que a forte agressão sofrida se dá pelo esgoto despejado no mangue pelos apartamentos e prédios comerciais do entorno do parque.

“A Sema destaca que vem monitorando o Parque Ecológico do Tramandaí, iniciando o processo de identificação e notificação de alguns condomínios e demais empreendimentos localizados nas áreas próximas ao parque, que realizam ligações clandestinas, para que se adequem e cumpram a legislação ambiental”, afirma a assessoria por meio de nota.

O Parque Ecológico Tramandaí possui uma área de aproximadamente 25 mil m² e foi criado com os objetivos de impor limites à ocupação da área, a preservação e conservação do mangue.

 

 

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