Por que o McDonalds? Convidamos 11 chefs para entender o recado que veio das urnas


A maior polêmica do Melhores do Ano foi, sem dúvida, a categoria ‘hamburgueria’ que levou o McDonalds ao primeiro lugar no pódio ladeado da Pointt’s e do Galego. Foi discussão a semana toda. Houve quem reclamasse do fato de uma rede de fast food estar listada pra receber voto como se o modo de fazer importasse – fast ou slow -, houve quem praticasse o xenofobia clamando pela valorização dos produtores locais, outros reclamaram do paladar do povo de Aracaju, teve quem tivesse sugerido com doses cavalares de ironia aos irritadinhos que elegessem a ‘hamburgueria de meu amigo em primeiro, a hamburgueria de meu amigo em segundo e a hamburgueria de meu amigo em terceiro’, outros adoraram o resultado… e houve muita gente que leu os dados com sapiência, como o caso do leitor Lucas Poderoso, que diante da enxurrada de mensagens no Instagram sobre o assunto, declarou:

Pessoal desesperado aí mas acho que tá faltando lucidez para interpretar os dados. Se o resultado foi tão chocante então vamos parar e pensar o que houve? Qualquer idiota sabe que McDonald’s não é lá essas coisas, mas é preciso analisar o que cada lanchonete está entregando pelo preço que está cobrando. É isso. Fica complicado sair de casa, sentar numa mesa na rua, pagar $25 reais em pão, carne e queijo e o infeliz não saber nem dar ponto na carne.

Convidamos 10 chefs locais pra analisar, agora com mais frieza, e responder: por que a maioria das pessoas elegeu o McDonald’s como o Melhor Burguer do Ano de 2017?

 

Dudu Lopes

Para Dudu Lopes, da Senhora Pizza, “com certeza a pesquisa de 2017 foi a mais real em minha opinião.  Eu acredito que não existe apenas um fator para isso ter acontecido, mas o principal foi o custo benefício. Eu vejo que o empresário sergipano não pensa a longo prazo, nem em ganhar no volume (lógico que associado a qualidade), mas muitas das vezes ele acha que produto caro é sinônimo de qualidade. O hambúrguer artesanal ou “gourmet” virou sinônimo de caro. Nomes bonitos e ingredientes em francês não encantam mais. 

Estamos enfrentando uma época de cortes de gastos desnecessários. Para o empresário diferenciado essa pesquisa foi um presente que se ele souber aproveitar todas essas informações, uma análise de Sowt (que é ver os pontos fortes e fracos dos seus concorrentes), com certeza ele vai sair na frente.”

 

 

 

Ad Yamashina (Jouis Fotografia)

Para Ad Yamashina, o chef do Radisson Hotel, foi uma surpresa ver o fastfood-mor desbancar as casas que fazem algo mais artesanal e que se importam com o natural dos produtos. “Eu realmente acho muito intrigante ainda termos espaço para comida mecanizada com tanta mídia te ensinando a comer bem hoje em dia. Mas talvez essa seja exatamente a reação do cidadão comum a tanta exploração da culinária na TV, na rua, no podrão do bairro… acho que a gente peca (nós cozinheiros e restauranteurs) de não saber separar o que é afetação de algo que cative o paladar das pessoas de verdade.”

 

 

Per Eric Meek, pitsmoker do Holysmoke, também aposta no preço. “Convenhamos que no preço do Mc é foda. Se vc tiver 16 reais seu filho come burguer, batata, Danone, refri ou suco e ainda leva um brinquedo com ambiente bom, atendimento rápido e eficaz. Com R$ 8 você come um BigMac. Eu gosto e não nego pra ninguém não. Acho melhor que muito burguer por ai. Papo sério! E podem falar de mim dizendo ‘nossa, um cozinheiro dizer que mac é bom não sabe o que é comida’. Se fosse ruim não teria dado certo como dá ate hoje. Onde abre, não fecha.”

Per Eric

Per ainda alerta pra um fato: “qualquer coisa de uns tempos pra cá é gourmet. Gourmet, ô palavra que dá raiva essa….povo cansou disso também. Tem carne alta, acha que tá foda é tá uma bosta. Sem sabor, e as vezes os ingredientes não casam e nego acha que eh sé misturar que fica bom de qualquer jeito. E Galego, Mags, Max, Sorriso… essas porra são bom pra caraaaalhoooo”.

 

 

 

 

 

 

Adriano Ferreira

Para Adriano Ferreira, cozinheiro e gerente de AeB do grupo Hibiscus(AL), ocorreram dois fatores preponderantes para vitória do McDonalds. “A falta de visão dos empresários locais que não percebem um mercado já saturado, com baixíssima qualidade na maioria dos casos. O cliente hoje está pagando caro demais pra comer um pão (ruim na maioria das vezes) blends(duvidosos), molhos de saquinho do Atacado, queijo de baixa qualidade. O cliente vai uma vez e não retorna, mas temos boas hamburguerias sim na cidade, com gente séria. Mas creio que o fato das ruins serem maioria ficou esse voto para o MC uma espécie de protesto. “olha a gente não quer pagar 25 conto em pão, carne e queijo, viu? Também não podemos tirar o mérito do MC, tem padrão, tem brinquedo, tem palhaço (que de bobo não tem nada) tem barato do dia, tem climatização, tem atendimento e rapidez. E principalmente muita fila pra comer.”

Thiaguinho

Thiaguinho, o mestre hamburgueiro do TAS, acredita na matemática e no tempo. “o McDonalds tem um público muito grande, é sucesso, sempre foi. Também é uma questão midiática, e de gosto, eu nunca diria que é uma coisa ruim. Porém, é diferente. Um é industrializado, outro é uma pegada caseira, uma coisa feita mais com carinho. Essa questão da rapidez tem influência no público.”

 

 

 

 

 

 

César Soutello (Anne Pacheco)

“Acredito que todo viciado em hambúrguer deve esse vicio ao McDonald’s.” Afirma o chef César Soutello, do Oliva Bartrô. E continua.

“Eu pelo menos aprendi a amar hamburguer lá! E não nego, duas ou três vezes por semana como nele. Afinal onde encontramos um bom hambúrguer às 3 da madrugada?

Acredito que esse primeiro lugar do McDonald’s tem muitos significados: Facilidade – muitas lojas e muitos drives , está presente em todos os lugares; Rapidez – em que lugar você chega e sai com seu lanche em 5 minutos ou menos; Sabor – não adianta criticar o danado é gostoso. Acredito que a população está cansada desse raio gourmetzador. Para quê gourmetizar tudo? Vamos apenas fazer comida com amor, seja hambúrguer ou sarapatel não importa, com bons ingredientes, feita usando métodos corretos e com amor, buscando qualidade e excelência nossos clientes vão gostar.”

 

 

A chef Inglidys, a Gui Fontes, da Singela Cozinha, acredita na força da internet nesse caso: “Minha opinião é que quem é mais ativo nas redes sociais são os mais jovens. E esse público é frequentador do McDonald’s.”

 

 

 

 

Conrado Rufino

Conrado Rufino, um dos pioneiros do Burger artesanal lá no Garage585 acredita que existe um lance que não envolve só comida. “Envolve ambiente, atendimento, música, cores do local, a vibe. Eu acho que essa galera tá focada no fast-food, e não no rolê de sair pra comer um hambúrguer. Mas por outro lado cê vê food truck vendendo hambúrguer à R$ 25 e isso é absurdo, e isso tá assustando um pouco.” 

 

 

 

 

 

 

“Tudo que vem como uma avalanche passa. O gourmet banalizou e muitas dessas casa não tem consistência, você come um burger hoje e amanhã já não esta igual, o McDonald’s é a empresa com maior número de procedimentos no mundo, ou seja não tem surpresas” opina o chef Lúcio Mauro, da Marmittaria do Chef.

“As casa antigas estão na memória afetiva das pessoas, o cara comia no Galego depois das baladas, era o que tinha. O simples nunca perdeu espaço, está sempre lá, mas o maior agravante é o preço, duas fatias de pão com carne de “segunda” moída, que lindamente começaram a chamar de blend, e que em geral é feito acem e gordura e são vendidos acima de 25 reais. O gourmet morreu, acabaram com ele e as pessoas já estão cansadas de pagar carro por algo que não tem nada de especial para ser gourmet, hambúrguer não é gourmet, brigadeiro e geladinho muito memos.” Conclui.

 

 

Para Leu Nascimento, chef do Terra Tupi, o McDonalds ganhou pela popularidade do produto com preços baixos associados a combos. “Logística de venda com 06 lojas, drive em 03 delas e padronização do serviço, e seu volume de vendas não se comparam com nenhuma outra neste ramo. Creio que isso fez mais diferença que propriamente pelo produto, não sendo à toa que criaram uma linha gourmet para atender clientes mais exigentes.”

 

 

 

 

 

Para João Gabriel, da Blend Burguer, a notícia deixou todo mundo – cozinheiros e “hamburgueiros” – de boca no chão. “Já diria o Rogério Fasano “acho o Macdonalds o melhor restaurante do mundo”. Ele justifica dizendo que o padrão que lá se vê, não se vê em nenhum outro local de alimentação. Acredito que a onda do burger passou, assim como a do brownie, a do temaki e como tantas outras que já vieram e que virão. O Brasil é feito de ondas, algumas ficam, outras vão. O burger nunca deixará de saciar a fome de alguém sedento por uma carne suculenta, bem grelhada, com um queijo derretido e um pão fofinho e consistente. Sempre existirá alguém querendo sentir e comer isso, é uma sensação única.” 

as pessoas cansaram, as famílias cansaram


“Só que as pessoas cansaram, as famílias cansaram. É muito burger em todo canto, feito de todo jeito, cobrando o que querem cobrar e com pouca qualidade, e aí onde aquele restaurante que lhe provém burgers de 8$ com um sabor justo pelo preço, e uma rapidez de um papa-léguas entra. Vai que nem uma avalanche, passa no Mac as 20h de um domingão pra ver. Não é e dificilmente será um burger com a qualidade tanto nutricional quanto sensorial que a de um burger caseiro, artesanal. Aqui em Aracaju temos meia dúzia de locais com burgers sensacionais, que não perdem em nada para os de fora.
Continuemos nós, a cozinhar e a reinventar o que já fizemos e como fizemos. Acredito que o novo sob a tutela do passado tem possibilidades incríveis de causar uma sensação diferenciada.”

João Gabriel (Foto: Jouis Fotografia)

 

Esse debate ainda vai acabar mudando muito a forma com que as coisas são feitas em Aracaju. Vamos acompanhar.

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