Voltou pra gente


Já era hora. As garrafas pets, sacolas, embalagens de alimentos e outros objetos que foram parar em ambientes marinhos e de água doce no Brasil começaram a se deteriorar em algo que começaremos a ouvir falar muito e que vai prejudicar a saúde de animais marinhos, e consequentemente a nossa: o microplástico.

Plástico nos oceanos: morte ou intoxicação da vida marinha

Por que o TAC está falando disso? Simples. A gente come peixe, frutos do mar e bebe água. A gente come e bebe plástico.

Enquanto resíduos de plástico grandes são relativamente fáceis de serem vistos e retirados da areia da praia, os microplásticos são quase impossíveis de serem removidos por serem muito pequenos e praticamente imperceptíveis a olho nu.

Os pequenos resíduos gerados pela fragmentação de grandes pedaços de plástico estão sendo analisados por universidades do Brasil. Um desses grupos observou que algumas espécies de peixes de água doce e de pequenos organismos marinhos ingerem frequentemente esses microplásticos. Alguns até os preferem à alimentação natural. Os contaminantes liberados por esses poluentes causam efeitos tóxicos para espécies de moluscos, como os mexilhões.

“Se os microplásticos forem ingeridos pela fauna marinha, os poluentes aderidos na sua superfície podem ser liberados no tubo digestivo do animal, o que pode causar efeitos tóxicos”, ressaltou Luiz Felipe Gusmão, coordenador da pesquisa realizada pela Fapesp.

Em outro estudo, os pesquisadores de São Paulo (Unifesp), em consórcio com outros pesquisadores de Natal(UFRN) e de Pernambuco (UFRPE), avaliaram a ingestão de microplásticos por um peixe de água doce comum e muito consumido em regiões semiáridas na América do Sul: o caborja (Hoplosternum littorale). Para realizar o estudo, eles analisaram o intestino de espécimes do peixe de um rio intermitente que passa pela cidade de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, capturadas por pescadores da região.

Análise da água: contaminação em todos os países
Fibra em amostra de água limpa: análise microscópia

Os resultados das análises indicaram que 83% dos peixes tinham detritos plásticos em seus intestinos – a maior proporção relatada para uma espécie de peixe de água doce no mundo até o momento.

A maioria dos detritos plásticos (88,6%) extraídos do estômago dos peixes era microplásticos com tamanho de até 5 milímetros, e as fibras foram o tipo de microplástico mais frequente (46,6%) ingerido pelos animais.

Os peixes consumiam mais microplásticos nas regiões mais urbanizadas do rio.

“Hoje tem sido muito discutido como diminuir os impactos causados por resíduos de plásticos grandes em ambientes e organismos marinhos e de água doce, mas a poluição por microplásticos também representa um problema muito sério”, disse Gusmão.

BEBENDO PLÁSTICO
A Organização Orb Media, que trata do assunto, detectou que a água da torneira de cidades ao redor do mundo já está contaminada com fibras microscópicas de plástico. Das 159 amostras de água potável coletadas em cinco continentes, 83% delas continham plástico.

A Sabesp, empresa de saneamento que atua em São Paulo e em outros 366 não faz tratamento para constatar a presença de microplástico.

O microplástico tá na água potável de Nova Iorque e do Líbano. Ninguém escapa. Aracaju e os 74 municípios também.

“Temos dados suficientes, vindos da análise da vida selvagem e dos impactos que ele está tendo sobre os animais selvagens”, diz Sherri Ann Mason, da Universidade do Estado de Nova York.  “Se isso está afetando [a vida selvagem], como podemos achar que não vai nos afetar de alguma forma?”

Sherri Ann Mason

Até aquela camisa do Flamengo que vai pra máquina de lavar solta fibras, que vão pro rio, e voltam pra você beber.

Em 1950, a produção global total do material foi de pouco mais de 2 toneladas. Em 2015, ou seja, apenas 65 anos depois, a produção foi de 448 milhões de toneladas.

Os primeiros estudos sobre os efeitos do plástico microscópico nos seres humanos estão apenas começando.

Mas o que há de certo é que já comemos e bebemos plástico. E isso não é nada bom.

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