Uma pessoa por dia é diagnosticada com o HIV em Sergipe


70% das mulheres casadas são contaminadas  a
partir de relacionamentos supostamente monogâmicos

Os registros de notificações de pessoas com o vírus HIV em Sergipe estão crescendo. Pelo menos um caso é diagnosticado por dia. Os números preocupam e o médico Almir Santana, coordenador do Programa Estadual de IST/Aids faz um alerta sobre a importância do uso do preservativo nas relações sexuais, independente de gênero ou orientação sexual.

“Todos precisam se conscientizar mais sobre os riscos e mudar o comportamento quando o assunto é a utilização da camisinha. Infelizmente muitas pessoas continuam não se prevenindo porque acham que não correm riscos”, acentua Almir.

Teste  para identificar a doença

Os preservativos são distribuídos constantemente pelas Unidades de Atenção Primária da prefeitura de Aracaju e da Secretária de Estado da Saúde.

Almir Santana ressalta que o diagnóstico precoce faz muita diferença na qualidade de vida do paciente, “já o diagnóstico tardio ainda é mais evidente em pacientes acima dos 50 anos, que descobrem que estão com o vírus da Aids quando já estão acometidos de uma doença oportunista grave”, alerta.

Em Sergipe, de 1987 até este ano, já foram registrados 6.020 casos de HIV. Atualmente, existem 5.797 casos notificados, sendo que 4.610 estão em tratamento.

Aracaju lidera o ranking com 2.378 casos, seguida por Nossa Senhora do Socorro, Itabaiana e Estância. “A maioria vive em situação de pobreza. A faixa etária mais atingida está entre os 20 e os 50 anos”, conforme revela o coordenador de ISTs.

Tratamento oferecido pelo SUS
O investimento do Sistema Único de Saúde (SUS) na prevenção da Aids no Brasil, com ampliação da testagem e acesso ao tratamento antirretroviral tem tem sido referência mundial. Por ser gratuito e considerado pelos usuários de boa qualidade, o Brasil tem recebido cada vez mais pacientes para se tratar nos principais hospitais públicos. Atualmente, cerca de 1.800 estrangeiros portadores do vírus HIV são acolhidos pelos brasileiros.

O sergipano de 33 anos que se apresenta com o pseudônimo de André conquistou um emprego e uma bolsa para estudar na Universidade Tohoko, no Japão, se mudou para o país em agosto de 2010 e escapou de um terremoto e tsunami que matou 337 pessoas e devastou várias cidades em março de 2011.

Apesar do susto, a vida do sergipano permaneceu intacta, repleta de ânimo para trabalhar, estudar e colaborar com a reconstrução do país. A ameaça só veio cinco meses depois, trazida pela palavra ‘positivo’ em um teste de HIV.

“Fiz o teste após sentir febre com muita frequência e perder cerca de 11kg em pouco tempo. Recebi a notícia de forma muito fria. O susto foi grande, me senti como se tivesse ouvido uma sentença de morte, fiquei desesperado e percebi que o tratamento é muito caro e eu não tinha condições para pagar”, recorda.

Em países desenvolvidos, além de pagar pelo atendimento, o coquetel de remédios que permite uma vida praticamente normal ao portador do vírus é pago ao custo que superam US$ 2 mil mensais. No Brasil, o medicamento e o teste são disponibilizados gratuitamente em todos os postos de saúde. Já em clínicas particulares, são cobrados em média R$ 250 por esse atendimento. O Sistema Único de Saúde disponibiliza 20 medicamentos antirretrovirais diferentes para o tratamento da Aids.

André diz ter ficado recluso dentro do apartamento que dividia com dois amigos na província de Miyagi, até que decidiu se abrir com um deles. “Eu achava que estava morrendo e acabei desabafando com um amigo que é de São Paulo, ele me deu muita força e disse que um parente dele também é portador do vírus e recebe todo tratamento e medicamentos do SUS, em Osasco, e me incentivou a voltar para Sergipe e procurar ajuda ao lado da minha família”, conta.

Em 2012, com apenas uma semana após o diagnóstico, André fez as malas e deixou para trás o emprego fixo, a bolsa de estudos e o visto permanente para buscar tratamento gratuito em Aracaju. “Nos primeiros oito meses eu já estava recuperado e continuei o tratamento psicológico e o uso do coquetel. Aprendi a conviver com o vírus. O preconceito ainda existe, por isso escolhi não revelar publicamente. Apenas a minha família sabe e me dá muita força. Hoje sei que é possível viver bem com o vírus, mas o melhor mesmo é prevenir. Não faço a mínima ideia de quando e através de quem adquiri”, explica.

Quando André chegou a Aracaju, se dirigiu a uma unidade dos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA´s) e foi recebido por uma equipe de profissionais multidisciplinares. “Encontrei uma equipe acolhedora e preparada, me senti seguro. Fui recebido por um psicólogo e encontrei uma luz no fim do túnel, passei a entender melhor o que estava acontecendo comigo e logo minha autoestima foi elevada. Fiquei muito feliz com o atendimento integral e gratuito com médicos, psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e enfermeiros capacitados”, vibra.

Contaminada pelo marido

Após sentir muita febre, calafrios, dor de cabeça, dor de garganta e dores musculares e perceber a presença de manchas em seu corpo, a dona de casa que se apresenta como Viviane, 42 anos, foi ao setor de urgência do Hospital Nestor Piva e foi orientada a fazer um teste de HIV. “Esses são os sintomas iniciais da infecção pelo vírus HIV”, explica Almir Santana.

Mas a dona de casa nem sabia como o teste é realizado. O diagnóstico da infecção pelo HIV é feito por meio de testes a partir da coleta de uma amostra de sangue. Esses testes podem ser realizados de forma gratuita em unidades básicas de saúde, em Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA´s), com cobertura do SUS.

Viviane foi ao Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), realizou o teste e ficou surpresa com o resultado. “Deu positivo e eu nem sabia o que era o vírus”, revela. A Aids é uma doença que se manifesta após a infecção do organismo humano pelo Vírus da Imunodeficiência Humana, o HIV. O vírus destrói os linfócitos [células responsáveis pela defesa do organismo], tornando a pessoa vulnerável a infecções.

A soropositiva ficou assustada e garantiu que mantinha relações sexuais sem preservativo apenas com seu marido há 15 anos. “Fiquei chocada porque nunca senti nada antes, meu marido também sempre foi saudável”, recorda. Mas Almir Santana explica que uma pessoa pode passar muitos anos com o vírus sem apresentar sintoma algum. “Tudo depende da saúde e dos cuidados do indivíduo com o corpo e alimentação. O diagnóstico precoce garante mais qualidade de vida, por isso é importante fazer o teste. Se o paciente for diagnosticado com menos de 350 linfócitos T CD4+ [células de defesa do organismo] inicia-se o tratamento com uma série de remédios conhecidos como coquetel”, explica.

Após o diagnóstico, a dona de casa começou o tratamento oferecido pelo SUS e foi orientada a incentivar seu marido a realizar o teste também. “No início ele resistiu, mas acabei lhe convencendo. O resultado foi positivo. Ele sofreu muito, revelou que me traiu algumas vezes e trouxe o vírus para mim. Perdoei-o, nos abraçamos neste momento delicado e estamos lutando pela vida juntos com muita garra”, garante.

Viviane faz parte do maior grupo das mulheres infectadas em Sergipe. De acordo com dados do programa IST/Aids, a maioria das mulheres infectadas pelo vírus, contraiu o HIV de seus maridos ou de parceiros fixos.

Dados do Programa Estadual de IST/Aids, da Secretaria de Estado da Saúde (SES), mostram que em Sergipe, das 1.831 mulheres com o vírus do HIV, 70% estão em relacionamentos monogâmicos e foram infectadas pelos companheiros.

Segundo a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira (PCAP), a cada seis casos de Aids em homens, era registrado um em mulheres. Hoje essa proporção caiu e está em dois para um. Em Sergipe, a estatística se mantém, já que dos 6.020 casos de HIV em adultos no estado, 65,86% são de homens e 34,14% de mulheres.

“Existe uma grande dificuldade no uso da camisinha no casamento. A questão da confiança entre o casal dificulta a tomada de decisão, que é agravada pelo hábito de homens que não são acostumados a utilizar o preservativo desde a juventude, por acreditar que a camisinha diminui a sensibilidade ou dificulta a ereção”, explica o gerente do Programa Estadual IST/Aids.

Para Almir Santana, mesmo nos relacionamentos em que o homem se recusa a tomar cuidado com a prevenção, há alternativas viáveis para que a mulher se cuide. “É preciso conversar com o parceiro, aproveitar qualquer oportunidade para falar sobre o preservativo. Se ainda assim ele não usar, existe a opção do preservativo feminino”, reforça Almir Santana.

Em Sergipe, mulheres infectadas recebem atendimento e medicação no Centro de Especialidades Médicas de Aracaju (Cemar) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), onde encontram insumos de prevenção. Elas ainda têm acesso a uma equipe composta por 10 infectologistas e médicos de outras especialidades, dentre os quais oftalmologistas, nutricionistas e ginecologistas.

Transmissão do vírus
O HIV pode ser transmitido pelo sangue, sêmen, secreção vaginal e pelo leite materno. “O uso consistente da camisinha é o meio mais seguro de se prevenir contra o HIV e contra outras Doenças Sexualmente Transmissíveis. Seringas e agulhas não devem ser compartilhadas. Todo cidadão tem direito ao acesso gratuito aos medicamentos antirretrovirais. A boa adesão ao tratamento é condição indispensável para a prevenção e controle da doença, com efeitos positivos diretos na vida do soropositivo”, orienta Santana.

Os medicamentos antirretrovirais ficam disponíveis no Centro de Referência para Atendimento às Pessoas com DST, HIV, Aids, localizado no Cemar do bairro Siqueira Campos e são disponibilizados pelo Ministério da Saúde (MS).

Novo método contra o HIV
A Secretaria de Estado da Saúde (SES) promoveu para os agentes comunitários de saúde de 19 municípios um encontro para debater o novo método existente para o combate ao HIV, chamado de Prevenção Combinada, que utiliza, além do preservativo, medicamentos antirretrovirais, que diminuem a carga viral e, consequentemente, reduzem a probabilidade do portador de HIV transmitir a doença para outra pessoa durante a relação sexual.

“Este método é o novo enfrentamento do mundo ao HIV e apresentamos aos agentes comunitários de saúde porque eles também são multiplicadores da informação e precisam conhecer o que há de novo na luta contra o HIV. Como os agentes têm contato direto com a comunidade, eles devem incentivar os portadores do vírus a irem ao médico regularmente, fazerem os exames e aderirem à Prevenção Combinada, reduzindo assim a probabilidade de outras pessoas serem infectadas durante as relações sexuais”, finaliza Almir Santana.

 

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