Prevenção e controle do câncer de boca podem salvar vidas


Por Fredson Navarro

Ações da Semana de Prevenção ao Câncer de Boca ocorrem em Aracaju até sexta-feira

As ações da ‘Semana de Prevenção ao Câncer de Boca’ seguem até esta sexta-feira (20) em Aracaju. A campanha é realizada todos meses de outubro em cumprimento a Lei Municipal 3.764, de autoria do vereador Dr. Gonzaga. No período são realizadas atividades educativas e mutirões de orientação, prevenção e diagnóstico do câncer de boca na população de Aracaju. A programação é coordenada pela Secretaria Municipal da Saúde e conta com o apoio do Conselho Regional de Odontologia de Sergipe (CRO/SE).

Dr Gonzaga é autor da Lei Municipal 3.764

O câncer de boca pode afetar os lábios e o interior da cavidade oral. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), 15.490 casos foram registrados no país em 2016, tendo atingido 11.140 homens e 4.350 mulheres. O vereador explicou que o objetivo do programa é conscientizar e orientar a população sobre os perigos da doença.“A informação é o primeiro passo para que as pessoas conheçam os modos de prevenção e de diagnóstico precoce que aumenta as chances de cura. O Brasil é o terceiro país com mais casos de câncer bucal do mundo. Os números alarmantes que precisam de atenção especial”, alertou o parlamentar.

Pesquisa
Um estudo desenvolvido por pesquisadores do curso de Odontologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) destaca que o atraso do diagnóstico do câncer de boca é um dos principais fatores que interfere na doença. A pesquisa alerta ainda que o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura e que o tratamento adequado deve ser iniciado com urgência.

As mudanças na qualidade de vida dos pacientes que aguardam o tratamento oncológico também foram analisadas com o objetivo de permitir um melhor planejamento das políticas de saúde. Sob orientação do professor Paulo Ricardo Saquete Martins Filho, a pesquisa foi realizada pelo cirurgião dentista Breno Araújo Batista e pelas alunas Sândyla Prata Paixão e Camila Macedo Mendes, que são bolsistas da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica (Fapitec). O estudo integra os projetos executados em parceria com o Núcleo de Análises e Pesquisas em Políticas Públicas (NAPs) e da Secretaria do Estado da Saúde (SES).

“A pesquisa trouxe resultados extremamente importantes. Nós demonstramos que o perfil do paciente com câncer de boca pouco mudou, embora tenhamos observado que quase 40% dos casos ocorreram em mulheres. A maioria dos pacientes procurou o primeiro atendimento em estágio avançado do câncer, em média sete meses após perceberem os seus primeiros sinais ou sintomas. O atraso no diagnóstico do câncer esteve associado ao sexo masculino, ao baixo nível de escolaridade e ao desconhecimento da gravidade da lesão”, detalha o professor Paulo Ricardo Saquete Martins Filho.

O estudo foi realizado no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse) e Hospital Universitário (HU) em pacientes com diagnóstico de câncer de boca por meio de exame clínico e questionários abordando as condições educacionais, socioeconômicas e demográficas, consumo de cigarro e álcool, localização do tumor primário, percepção dos primeiros sinais e sintomas, conhecimento e experiência sobre câncer, uso de automedicação, medicina alternativa, tempo decorrido da percepção dos primeiros sinais e sintomas da doença até o tratamento e qualidade de vida.

“A prevenção é a melhor forma de se cuidar. O diagnóstico tardio dificulta o tratamento oncológico, diminui as chances de cura e interfere na qualidade de vida dos pacientes. A pesquisa busca o atendimento interdisciplinar desde o diagnóstico da doença para o paciente que necessita também do apoio psicológico e ajuda dos familiares. Nesta fase é muito importante que o paciente tenha um bom relacionamento social, não se isole nem se pode se entregar. O prognóstico tem tendência a ser menor. O controle da doença pode salvar vidas com o tratamento”, explica o professor Paulo Ricardo.

A pesquisa identificou que a doença afeta a vida física, psicológica e social do paciente. “A doença é mutiladora de deixa os pacientes com problemas relacionados ao sono, interfere na vida sexual e também pode provocar um descontrole nas atividades rotineiras e até financeiras”.

Os principais fatores de risco são idade superior a 40 anos, vício de fumar cachimbos e cigarros, consumo de álcool, má higiene bucal, uso de próteses dentárias mal ajustadas e doenças da gengiva. O câncer bucal manifesta-se principalmente pelo aparecimento de feridas na boca que não cicatrizam após alguns dias. O estágio avançado da doença caracteriza-se pela dificuldade para falar, mastigar e engolir, além de emagrecimento acentuado, dor e presença de caroço no pescoço.

Diagnóstico
O diagnóstico precoce é de fundamental importância para que os pacientes tenham uma maior chance de cura. “Infelizmente, o que se observa no dia a dia é que os pacientes procuram atendimento em estágios avançados da doença, especialmente pela falta de conhecimento sobre os fatores de risco, desconhecimento sobre como o câncer pode se manifestar na cavidade oral, desconhecimento sobre a importância do autoexame e às vezes por dificuldade de acesso aos serviços de saúde”, observa o professor.

“A prioridade é que após o diagnóstico do câncer, o paciente comece o tratamento por uma equipe multidisciplinar. Mas o procedimento do diagnóstico demora em média três meses e o paciente já perde tempo, por isso tem que acelerar o tratamento. A fila de espera para iniciar é outro problema grave”, completa.

Tratamento
Os métodos terapêuticos aplicáveis ao câncer da boca são a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia. Lesões iniciais são tratadas através de cirurgia ou radioterapia – a cura pode ser obtida em 80% dos casos, segundo o Inca. O agricultor Antônio da Silva Soares tem 64 anos, mora no município de Porto da Folha, e recebeu o diagnóstico de câncer de boca há cinco anos. “Passei a vida toda fumando e comecei a sentir umas feridas na boca, não dei importância no início, mas depois passei a sentir dificuldade para comer e falar. Meu filho me levou no médico e quando recebi o diagnóstico fiquei sabendo da doença. Tive muito medo de morrer”, recorda.

Antônio passou por uma série de exames e o médico considerou seu estado grave. “Tive que passar por uma cirurgia e logo comecei as sessões de quimioterapia. Ainda continuo o tratamento com radioterapia, parei de fumar, passei a me alimentar melhor e mudei de estilo de vida”, orgulha-se.

Todo o tratamento foi realizado pelo Sistema Único de Saúde no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse) em Aracaju. A espera pelo tratamento oncológico foi um dos pontos cruciais da pesquisa, onde os pacientes demoraram em média três meses para iniciar seu tratamento. A espera pelo tratamento acabou repercutindo negativamente em vários domínios de qualidade de vida dos pacientes, especialmente aqueles que se referiam à sua condição física, de rotina de vida, social e emocional.

“Observamos que durante à espera pelo tratamento, as queixas de sintomatologia dolorosa aumentaram significativamente, bem como os problemas relacionados à deglutição, fonação e mastigação. Os distúrbios de sono e as dificuldades financeiras também foram marcantes em nossa pesquisa”, explica o professor.

Diego Borrajo defende tratamento a laser

Laserterapia
O odontólogo Diego Borrajo reforça que o tratamento odontológico prévio ao tratamento oncológico elimina ou estabiliza as condições bucais para minimizar a infecção local e sistêmica, durante e após o tratamento do câncer e aumenta a qualidade de vida do paciente.

O tratamento oncológico está associado a diversos efeitos colaterais que variam de intensidade de acordo com a modalidade, forma e a intensidade da administração das doses de quimioterapia e radioterapia. O agravamento dos efeitos colaterais poderá acarretar a paralisação do tratamento oncológico, com a consequente internação hospitalar para a recuperação do paciente.

“Diante disso, o laser surge como uma alternativa comprovadamente segura e eficaz. As aplicações atrasam o tempo de estabelecimento das lesões, acelera a cicatrização, modula a inflamação, promove alívio na percepção da dor e, quando associada a um corante, tem ação antimicrobiana, além de minimizar os custos do tratamento por diminuir as internações, melhorando assim, a qualidade de vida dos pacientes que passam pelo tratamento de quimioterapia e/ou radioterapia”, defende.

Políticas públicas
No Brasil, apesar de quase um século de combate à doença, com políticas públicas baseadas em programas de assistência oncológica e campanhas preventivas, ainda é alta a incidência da doença. “O Instituto Nacional do Câncer estimou para este ano que o câncer na cavidade oral ocupasse o 4º lugar entre os homens e o 9° lugar entre as mulheres, com as maiores taxas de incidência ocorrendo nas regiões Sudeste e Nordeste do país. Em Sergipe foram estimados 9,28 casos para cada 100.000 homens e 4,10 casos para cada 100.000 mulheres”, revela o pesquisador.
O professor Paulo Ricardo alerta que é necessário ampliar o conhecimento da população acerca dos fatores de riscos, estimular o autoexame, capacitar os profissionais da odontologia para prevenção e diagnóstico precoce da doença e propor mudanças de planejamento e gestão para o atual modelo hospitalar vigente.

O acompanhamento dos pacientes à espera pelo tratamento por uma equipe de profissionais de várias áreas, incluindo fonoaudiologia, psicologia e serviço social, é de fundamental importância para a manutenção da qualidade de vida destas pessoas, garante.

Prevenção
A grande maioria dos fatores de risco para o câncer de boca são evitáveis e incluem especialmente o hábito de fumar e o consumo de bebidas alcoólicas. A exposição crônica à radiação solar também se constitui em um importante fator de risco para o câncer de lábio inferior. Aqui em Sergipe, nós já demonstramos que aproximadamente 20% dos trabalhadores rurais no Sertão do São Francisco apresentam uma alteração no lábio inferior conhecida como queilite actínica, precursora de câncer nesta localização, disse o professor Paulo Ricardo.

O oncologista Pedro Lemos explica que praticar exercícios físicos regularmente, comer bem e evitar cigarro e bebida alcoólica são atitudes que podem diminuir o risco de câncer. Frutas, verduras e legumes têm nutrientes e substâncias que reduzem o risco da doença em, pelo menos, 40%, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). No entanto, alimentos com alto teor de gordura ou sódio, carnes vermelhas e processadas oferecem risco e devem ser evitados. O consumo de carne vermelha deve ser de até 3 vezes por semana. Mais que isso, o risco de câncer de intestino aumenta em até 35%.

Quem fuma tem mais riscos de ter câncer de boca

Perfil de Sergipe
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) registrou mais de 15 mil novos casos de câncer de boca no Brasil em 2016. Não existem dados de Sergipe, mas de acordo com a pesquisa e informações de profissionais da área, os mais pacientes mais atingidos são homens fumantes com mais de 50 anos. O Conselho Regional de Odontologia de Sergipe orientou aos profissionais a intensificar o diagnóstico precoce da doença.

“Em Sergipe, a maioria dos pacientes com câncer de boca apresenta idade superior a 50 anos, é do sexo masculino, de baixa renda e nível de escolaridade, faz uso crônico de tabaco desde a adolescência e reside em zonas rurais. De uma maneira geral, os trabalhadores rurais que apresentam esta condição são homens, tem a pele clara, um tempo de exposição acumulada ao sol, um tempo de exposição diária superior a 8 horas, são fumantes e não utilizam protetor solar”, finaliza o professor Paulo Ricardo.

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