Em jogo de soma-zero, STF recua e cede a chantagem da quadrilha parlamentar


Semana que passou o Supremo Tribunal Federal deu mais um passo rumo ao suicídio moral a que tão esmeradamente se dedica nos últimos tempos.

Acovardada por uma plêiade de ladrões de colarinho branco aboletada na Presidência da República , no Senado e na Câmara dos Deputados, a instituição protagonizou nova peça bufa em que prevaleceu a falácia para justificar a absoluta incapacidade de fazer justiça contra os bandidos da elite política e econômica nacional que sequestraram o país e o mantém nas rédeas de gigantesca e poderosa quadrilha de vigaristas.

Após timidamente mandar para casa o todo poderoso senador Aécio Neves, flagrado pedindo propina a gangue da J&F e JBS, o STF gestou nova misancênia televisiva para voltar atrás da decisão, logo que se viu pressionado e chantageado pelo bando do Congresso Nacional.

A gangue parlamentar ameaçou retaliar descumprindo e desautorizando a decisão judicial e, pior, sugerindo a realização de ações de impeachment contra os apaniguados membros da suprema corte, ali colocados pelos mesmos gangsteres que hoje controlam os poderes Executivo e Legislativo no país e, agora, como obviamente se percebeu, o próprio poder Judiciário.

Com as ameaças de retaliação do parlamento, alguns Ministros do STF – que lá chegaram apadrinhados pelos mesmos elementos que hoje se veem obrigados a julgar e a defender -, perceberam que com as punições a Aécio estavam a cometer o que se denomina, em teoria econômica, de jogo de soma zero. Um jogo em que ninguém ganha ou em que todos perdem.

Daí a maioria optou por desistir da sentença anterior e liberaram o Senador do PSDB, partido político que, como o PT, o PMDB e o Democratas, possuem inúmeros réus oriundos da operação Lava Jato que proximamente serão julgados pelos mesmos doutos magistrados “imparciais” indicados por estes partidos.

O resultado é que prevaleceu, pela enésima vez no Brasil, a marca inconfundível do nosso “justíssimo” poder Judiciário, como bem formulou um dos ilustres membros da corte, o Ministro Luis Roberto Barroso, ao enfatizar “a nossa tradição de prender miúdos e proteger graúdos”.

Diante de uma justiça que manda para casa marginais de colarinho branco bilionários como Eike Batista e os gatunos do rio de Janeiro que exploraram por décadas, com a ajuda de políticos, o empobrecido e enxovalhado povo carioca, enquanto mantém na cadeia por meses seguidos a miserável mãe que roubou dois quilos de leite em pó para alimentar o filho, não há a mínima dúvida de que nosso judiciário só tem moral para prender ladrão de galinhas, preto, pobre e prostituta, como costumeiramente o populacho cansa de falar em mesa de bar, em jargão chulo mas de proverbial sabedoria.

Me sinto ultrajado como brasileiro por morar num país de bandidos governado por bandidos. E me sinto entristecido por saber que meus filhos e os seus filhos, os nossos filhos, receberão de nós o país de farsantes e criminosos que lhes deixaremos por herança.

Uma herança de injustiças, desigualdades, bandidagens, vigarices, farsas, corrupção desenfreada e exploração abjeta de cidadãos por uma elite econômica e política parasitária, criminosa, gananciosa e covarde e uma casta de servidores a viver nababescamente às custas da exploração do cidadão contribuinte, sob a égide de três poderes constitucionais que se tornaram a tríade da vergonha nacional.

Enquanto isso, é nojento e revoltante observar a desfaçatez e o desenvolto descaramento de alguns que acreditam que uma toga negra sobre os ombros e uma indicação apadrinhadora lhe confere o direito de se considerarem mais espertos do que a patuleia que, desprovida de dinheiro, só resta se submeter ao tripudiar de farsantes e aos argumentos falaciosos dos hipócritas no poder.

*César Gama é jornalista, biólogo, gestor ambiental, psicanalista e professor.

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